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Publicado originalmente em 28/2/2004 20:06:22
Por Acauan

A cara da religiosidade brasileira se mostra quando você pergunta a alguém qual é a sua religião e ele responde, com a maior cara-de-pau, que é Católico não praticante.

Quem já viu alguém se identificar como evangélico não praticante, judeu não praticante ou muçulmano não praticante?

Não estou dizendo que inexistam não praticantes nestas religiões. Eles não só existem como são abundantes nos países em que suas respectivas crenças são majoritárias. O número de judeus não praticantes em Israel é muito superior ao que faria supor a imagem de um país historicamente relacionado à fé de Abraão e Moisés. Um crentão brasileiro ficaria escandalizado com os hábitos de seus irmãos de fé residentes em New York e por aí vai.

A diferença é que você não vai ouvir alguém dizer que é presbiteriano não praticante. Evangélicos nesta situação costumam citar a igreja que freqüentam e comentar que no momento estão afastados dela por algum motivo ou coisa parecida.

Já o catolicismo brasileiro é uma festa, a maioria é não praticante, se declara assim, não liga a mínima mas, estranhamente, te olham torto se você disser que é ateu.

O engraçado é que esta turma toda não sabe, e a Santa Madre não conta, que a grande maioria dos católicos que se dizem não praticantes irão todos para o purgatório após a morte, isto na melhor das hipóteses, pois os que além de não praticantes das obrigações religiosas não praticaram as chamadas virtudes teologais irão para o inferno mesmo.

Detestaria dizer isto para eles, mas os católicos têm inferno também, igualzinho aos crentes, só mudou o discurso – em vez de lago de fogo com choro e ranger de dentes (brrr... que medo...) a Santa Sé define o inferno como ausência de Deus. Mas não fiquem alegrinhos não, podem ter certeza que “ausência de Deus”, para a Igreja Católica, boa coisa não é.

Mas como eu ia dizendo, os católicos não praticantes vão para o purgatório porque a Santa Madre é tão preocupada com a obra de Deus que achou que os dez mandamentos dele não eram suficientes e fez mais cinco:
Mandamento da Igreja Católica Apostólica Romana:

1. Participar da missa nos domingos e festas de guarda.
2. Confessar-se ao menos uma vez cada ano.
3. Comungar ao menos pela Páscoa da Ressurreição.
4. Fazer uma só refeição completa e nada de carne, nos dias que a Igreja determina.
5. Pagar o dizimo segundo o costume.



Ahá! Você não sabia que a Igreja Católica também ordena o dízimo?
Os católicos não praticantes também não sabem (os praticantes quando sabem em geral não pagam, viram porque é melhor ser católico do que evangélico. Pensando bem, é melhor não ser nem um nem outro).

Quem é católico não praticante não obedece aos mandamentos da Igreja, quem não obedece aos mandamentos da Igreja incorre em pecado venial (alguém aqui sabe o que é pecado venial? Os católicos não praticantes também não sabem) e quem morre em pecado venial vai para o purgatório, a menos que se confesse antes de morrer, mas se ele se confessasse seria católico praticante.

Mas não pensem vocês que os católicos não praticantes não são devotos.

Pelo contrário, eles são extremamente devotos, só que da religião dos outros.
Nenhum Católico não praticante (e muito poucos praticantes) sabe o que é a Patrística, mas um montão deles conhece a obra de Allan Kardec décor e salteado, sabe a diferença entre Babalaorixá e Yalaorixá (eu não sei), sabe do que Iemanjá gosta e deixa de gostar ou pode mapear os seus chacras de olhos fechados.

Católico não praticante é tão não praticante que quando resolve virar praticante sai merda.

Foi o que ocorreu com a Renovação Carismática Católica, grupo de católicos que se empenharam tanto em valorizar a prática religiosa que viraram evangélicos pentecostais.