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Karol Joseph Wojtyla morreu às 16h37min (horário de Brasília) do dia 02 de Abril de 2005.

Sai de cena o último dos quatro construtores do final do século XX que ainda estava no poder.

De certa forma o século XX morre com ele, estendendo-se além dos limites da cronologia por obra de um pontificado que decidiu passar para História antes de terminar.

Em 1979 Margaret Thatcher foi eleita Primeiro Ministro da Grã-Bretanha.
Em 1980 Ronald Reagan foi eleito presidente dos Estados Unidos da América.
Em 1985 Mikhail Gorbachev chega ao poder na União das Repúblicas Socialistas Soviéticas.

Mas foi Karol Wojtyla, em 1978, o primeiro a se assentar em um dos quatro postos que colocaram em movimento as engrenagens históricas da surpreendente seqüência de eventos que produziria o mundo do início do vigésimo primeiro século.

Foi o primeiro a se assentar e o último a sair, vivendo no intervalo o que os chineses chamam de tempos interessantes.

Quando a chama olímpica entrava no Estádio Lênin para a cerimônia de abertura dos jogos de Moscou, em 1980, a atenção do mundo se dividia entre a simpatia do ursinho Micha, mascote dos jogos e o recrudescimento da guerra fria, motivado pela invasão soviética ao Afeganistão, por conta da qual o governo americano ordenou o boicote de seus atletas às competições.

Embora as contradições do império soviético já fossem conhecidas na época a ponto de não serem poucos os que tinham certeza de que o gigante cairia, pouquíssimos foram os que previram quando e como se daria tal queda, uma vez que a época e o cenário permitiam as mais pessimistas especulações.

Nove anos após a Olimpíada que mostraria ao mundo as vitórias do socialismo, o muro de Berlim desabava, uma das pedras da seqüência de dominós que destruiria a cortina de ferro e a própria União Soviética, dois anos depois.

Mas Berlim não foi o primeiro dominó da cadeia.
Esta honra coube a Gdansk, a antiga Dantzig, cidade polonesa industrial do báltico, muito citada nas histórias das guerras mundiais.
Foi lá, no mesmo ano dos Jogos Olímpicos de Moscou, que surgiu o Sindicato Solidariedade, liderado por Lech Walesa, que, comandando as greves dos operários dos estaleiros, desafiou a repressão comunista local e o risco da invasão da Polônia pelas forças do Pacto de Varsóvia, ironicamente chamado pelo nome de sua própria capital.

A confiança de Walesa se apoiava em sua fé incondicional em dois personagens: A Virgem Negra de Czestochowa e Karol Wojtyla.

O Papa que ingressou na Igreja Católica Romana em uma Polônia sob a mão de ferro de um regime totalitário e anti-religioso personificou a Fé que define a identidade nacional dos poloneses, os diferenciando dos demais eslavos, na maioria ortodoxos, e usou com decisão a força desta simbiose entre religião e nacionalismo contra a ditadura polonesa.

Venceu.

Anos depois, João Paulo II enxergou na Glasnost de Gorbachev a grande chance de libertar seu país e golpear fundo o comunismo que execrava. Para isto aliou-se a Reagan e Thatcher numa forte e decidida coalizão que o cambaleante império comunista não conseguiu enfrentar.

Cumpria-se a missão de vida de um homem que na juventude viu seu país ser massacrado pela tirânica ocupação nazista e assistiu a partida dos alemães coincidir com a chegada de um novo opressor, as divisões de Stalin.

Não é de admirar que um cardeal capaz de vencer neste ambiente hostil desenvolvesse as capacidades que o fariam o líder espiritual de mais de um bilhão de católicos, primeiro Papa não italiano em séculos.

Também não causa surpresa que alguém com tal biografia se tornasse um conservador convicto.
Suas posições radicais contra o aborto, os métodos contraceptivos artificiais e as pesquisas com células tronco embrionárias lhe valeram a oposição raivosa dos setores da sociedade que defendiam tudo isto.

A atitude do Papa quanto a esta oposição foi expressa claramente em sua visita aos Estados Unidos, país onde os liberais católicos prometiam colocar o pontífice contra a parede e exigir mudanças de rumo do Vaticano.
Calaram-se todos quando João Paulo II desafiou-os em público, dizendo que aqueles que não estivessem satisfeitos com as doutrinas de Roma eram livres para deixar a Igreja, já que a Santa Sé preferia ter bons católicos a ter muitos católicos.
O viajante polonês conquistava a América.

Nas quase três décadas de seu pontificado combateu o esquerdismo dentro da própria Igreja que comandava com a mesma energia com que o combateu fora.

Com João Paulo II a Teologia da Libertação perdeu força na cúpula romana, sobrevivendo no baixo clero e em segmentos do episcopado latino-americano, onde desarticulado e sem apoio nos altos círculos cardinalícios sofreu a irônica derrota de assistir o crescimento de um movimento apolítico e avesso às ideologias esquerdistas – a Renovação Carismática Católica.

Também por ironia, não é segredo que não agradava ao Papa tirar a Igreja do marxismo para ver tantos fiéis católicos bandearem para um neo-pentecostalismo que beira a heresia, mas Karol Wojtyla parece ter reconhecido os limites de sua obra e deixado para seu sucessor combater esta nova contaminação no seio da Igreja Romana.

Mas sua maior derrota foi ver sua Igreja arrastada pelos escândalos de pedofilia de clérigos, vergonhosamente acobertados por seus superiores.

Pessoalmente, destaco duas lembranças minhas de João Paulo II.

A primeira, foi ter minha baixa no serviço militar adiada por causa de uma das viagens do Papa ao Brasil, quando se cogitou a convocação de minha unidade para atuar nos serviços de apoio prestados pelas forças armadas para organizar e dar segurança às grandes concentrações que se formavam para ver o pontífice.
Dada a irrelevância de minha unidade, terminamos não sendo convocados para nada.

A segunda lembrança é a de encontra-lo celebrando uma missa campal na Piazza San Pietro, quando um Índio viajante, mais interessado em mostrar ao seu pequeno filho o magnífico acervo do Museu Vaticano do que em avistar celebridades, deparou-se inesperadamente com um Papa já velho e doente, que em nada lembrava a figura enérgica e vibrante que descia imponente das escadas dos aviões para beijar o solo dos países que visitava.

Mas então, quando a voz do Papa entoou em canto a benção final, num tom surpreendentemente firme e vigoroso, todas as demais vozes na grande praça se calaram e o silêncio de milhares testemunhou o carisma de Karol Wojtyla.