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Carnaval tem os que adoram e os que detestam.
E tem os crentes.

Crente evangélico adora tanto detestar o carnaval que não vê a hora que chegue esta época do ano, só para expressar de modo ostensivo o seu descontentamento com o período carnavalesco pelo qual esperou o ano inteiro.

Não faz o menor sentido, eu sei, mas os crentes também não fazem.

Igreja evangélica durante e após o carnaval é uma festa só, algumas com fila para se dar testemunho de como lutou e venceu contra as tentações do demônio e suas investidas contra o povo de Deus, que abundam (em mais de um sentido) nesta época, ou para contar como evangelizou o travesti que ia sair de passista da escola de samba tal, minutos antes dele entrar na avenida, e o convenceu a aceitar Jesus, se arrepender e voltar a ser macho.

Crente é igual baiano. O carnaval deles começa uma semana antes e termina uma semana depois que o de todo mundo.
Quem vocês acham que são os primeiros a desfilar nos sambódromos? Se disserem que são as escolas deste ou daquele grupo erraram.
Antes que a comissão de frente da escola de samba que abre o carnaval ponha o pezinho fantasiado na passarela, com certeza um grupo de oração evangélico já percorreu todo o caminho para fazer a desinfecção espiritual do ambiente.
Depois dos desfiles vem outro grupo, talvez mais especializado, fazer o fechamento e amarrar um ou outro demônio da luxúria que esqueceu de voltar pros quintos depois da terça-feira.

E tem os retiros.

Como observador da religião já participei de muita coisa estranha (sempre a convite de alguém que apostou que não devia ser difícil catequizar mais um Índio), mas retiro espiritual de crente eu nunca fui – E nem quero, Deus me livre, Cruz Credo!!!
Um dos raros momentos em que penso em me converter é quando cogito a possibilidade do inferno ser um lugar cheio de crentes tocando violão.

Mas parece que nestes retiros inventaram o carnaval gospel, que pelo que eu entendi deve ser parecido com o carnaval do Brasil num universo paralelo de antimatéria.
Nestes retiros de carnaval evangélicos tem muita música gospel, muita atividade gospel, muito relacionamento gospel e muita diversão gospel ou seja, um pé-no-saco de chatice que não tem tamanho.

E deve ser cheio de crente tocando violão.

Só para constar, não que eu, particularmente, goste muito de carnaval. Por centenas de anos meu povo desfilou pelado pelo Brasil inteiro e isto nunca foi considerado festa.

Publicado originalmente em 20/2/2004 13:47:29
por Acauan