Religião

Aquiles e Jesus - Parte I

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Por Acauan

Todas as civilizações e culturas se ergueram sobre um conjunto de mitos fundadores que estabeleceram as percepções simbólicas da realidade, a partir das quais grupamentos de comunidades humanas desenvolveram identidade, valores e objetivos comuns.

Os significados míticos associados à morte, extraídos daquelas percepções, buscavam um sentido para a finitude humana que, paradoxalmente, só era encontrado na negação desta finitude.

Neste contexto, as duas narrativas míticas que lançaram as raízes da civilização ocidental, a Ilíada de Homero e a Bíblia judaico-cristã, apresentam visões opostas e complementares sobre os significados da morte e, por extensão, sobre os significados da vida humana, a partir da morte de dois de seus respectivos protagonistas, Aquiles e Jesus de Nazaré.

Aquiles foi o herói fundamental.
O guerreiro indestrutível, de imaculado valor pessoal, inspiração e modelo para todo um povo aos olhos do qual parecia predestinado ao eterno triunfo.

Com tudo isto, o filho de Peleu era mortal, atributo que definia sua verdadeira, e derradeira, predestinação.
Aquiles tombou pelo arco de Paris, pela fúria de Apolo e por sua única fraqueza, o calcanhar não imerso nas águas do rio Estige.

A morte de Aquiles é puramente trágica.
É o fim dos triunfos.
O maior dos guerreiros se vê privado da morte gloriosa em combate ao ser abatido a distância pelo inimigo de tocaia.

O significado mítico da morte de Aquiles é resumido pelo próprio, que, evocado por Ulisses, lamenta sua estada no Hades.
Quando o rei de Ítaca declara ao companheiro que ele merece ser aclamado príncipe entre os que tombaram, Aquiles retruca que preferia ser escravo entre os vivos que nobre entre os mortos.

O sofrimento de Aquiles não provém de tormentos externos, como no inferno cristão, mas da interrupção brusca e irrevogável de tudo que fazia dele o que era.
Aquiles, na morte, contempla para sempre seu próprio esvaziamento como ser, enfrentando a dualidade dramática de ser testemunha de seu próprio inexistir, uma morte sem o alívio anestésico da inconsciência.

Sua morte traduz a certeza trágica de que todas as vitórias humanas apenas anunciam a derrota final, que anulará todo triunfo que a precedeu.

Só que esta certeza não é absoluta.
Coube a Ulisses confrontá-la. Primeiro ao restaurar o ânimo de Aquiles relatando os grandes feitos de seu filho Neoptólemo e, em outro momento da narrativa, ao recusar a oferta de imortalidade e juventude eterna feita pela ninfa Calipso, em troca da permanência dele junto a ela.
Ulisses escolhe voltar para seu reino, para sua casa e para sua esposa.

Se o vazio dos mortos pode ser preenchido pelas notícias do sucesso de um filho e se o que preenche nossas vidas finitas – amor, família, lar - vale mais para nós que uma existência imortal, a certeza trágica traduzida na morte de Aquiles não é tão certa assim.

É no hiato desta dúvida que as mortes de Aquiles e de Jesus de Nazaré se aproximam.

Publicado originalmente em 11 de julho de 2006, às 23:12

Aquiles e Jesus - Parte II

Santa Croce, o triunfo do espírito

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(Estudo Nº 1 para a conclusão da série Considerações sobre o espiritual)
Postado originalmente em 2/11/2004 15:55:30 

por Acauan
nulli aetatis suae comparandu
(Inscrição no túmulo de Galileo Galilei, Basílica de Santa Croce, Florença, Italia)

Numa primeira vista, a Basílica de Santa Croce em Florença não causa deslumbramento.
Ofuscada pela onipresença imponente da catedral Duomo, a construção gótica parece ser mais uma igreja entre tantas da gloriosa cidade toscana.

Basta adentrá-la para mudar de idéia.

Como uma lufada de luz, a grandeza humana sopra e ilumina o visitante que se depara com as tumbas e monumentos fúnebres que o velho templo abriga.

Os nomes falam por si só: Michelangelo Buonarroti, Dante Alighieri, Nicolau Maquiavel, Giacomo Rossini, Galileo Galilei, Guglielmo Marconi, Enrico Fermi e muitos outros.

As inscrições nas lápides fazem mais do que identificar:
Galileo Galilei, geômetra, astrônomo, filósofo, matemático, incomparável em seu tempo...

Michelângelo Buonarroti, escultor, pintor e arquiteto, fama omnibus notissimo...

Nicolau Maquiavel, tanto nomini nullum par elogium.

A inscrição na tumba de Maquiavel poderia ser repetida em todas as outras: - Tão grande nome, nenhum elogio alcança.

Santa Croce nos lega uma mensagem.
Aqueles homens estão mortos, e mesmo assim caminham conosco pelos corredores da vecchia chiesa, erguem nosso olhar com seus braços apontando o adiante, enquanto nos dizem – continuem nossa obra, sigam em frente, descubram a verdade, aprendam a justiça, criem o belo, sede corajosos e alcancem o BEM.

Em Santa Croce, os altares erguidos para celebrar a memória de um Messias ressurrecto aceitam resignados o papel de coadjuvantes, diante da memória celebrada de outros que venceram a morte, mesmo que imersos em seu sono.
Nos ensinando e lembrando que existe transcendência na condição humana. Nossa descendência, nossa obra, nosso ideal. O amor que motivamos e a memória que construímos.

O heroísmo de nossos bravos, o brilho de nossos sábios e a poesia de nossos bardos não morre.

O triunfo do espírito humano vive.

Em Santa Croce e em cada um de nós.

A Armadilha Criacionista

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Publicado originalmente em 28/11/2002 18:15:24
 
Aceitar que exista uma polêmica “Criacionismo X Evolucionismo” é de imediato muito favorável ao primeiro e prejudicial ao segundo, pois nivela ambas as teses dentro do status de teorias científicas antagônicas e coloca os defensores tanto de uma quanto de outra na confortável posição para os “criacionistas” de participantes de um debate científico.

Da mesma forma, ao aceitar a classificação de “Evolucionista” o cientista desavisado se deixa marcar por um sufixo que define partidarismo e parcialidade, perdendo assim a aura de isenção que caracteriza o exercício da investigação científica.

Não existe um debate científico entre “Criacionismo e Evolucionismo” e sim um debate de idéias entre os defensores de uma doutrina religiosa e os de uma teoria científica.
O que os fundamentalistas cristãos chamam de “Criacionismo” não pode ser aceito como Teoria Científica simplesmente porque coloca o carro a frente dos bois no que concerne à esta definição:

Uma teoria científica parte de uma hipótese, identifica evidências que a sustentem e só então declara uma conclusão. Para que esta conclusão seja aceita pela comunidade científica, ela deve ser passível de comprovação experimental reprodutível.

Uma Doutrina Religiosa como o Criacionismo segue o caminho inverso: A conclusão já está a priori definida e é incontestável antes de qualquer evidência ter sido levantada, cabendo à evidência apenas o papel de sustentar a argumentação futura e não a de comprovar a confiabilidade da tese presente.

Além disto boa parte da argumentação “Criacionista” é de contestação e não de estabelecimento de conceitos, uma vez que os argumentos sempre se infiltram nas lacunas das Teorias de Darwin.

Esta infiltração seria menos eficaz se os cientistas tivessem uma posição mais honesta com relação às lacunas citadas. Elas em nada comprometem a Teoria da Evolução em si, apenas atestam que ela precisa ser mais trabalhada, mesmo porque as comprovações experimentais da Seleção Natural exigem a reconstituição de fenômenos que ocorreram ao longo de milhões de anos, não sendo passíveis de reprodução em laboratório pelos nossos recursos atuais.

Um exemplo comparativo interessante é o desenvolvimento da Teoria Heliocêntrica:

Em 1510 Copérnico declara que a Terra gira em torno do Sol, rompendo com a doutrina da Igreja Católica Romana que defendia o Geocentrismo Aristotélico.
Copérnico acreditava que a Terra e os demais planetas descreviam órbitas circulares em torno do Sol, o que criava um problema pois a observação dos planetas não coincidia com as previsões fundamentadas em sua teoria.

Entre 1609 e 1619 Johanes Kepler defendeu a tese de que os planetas, inclusive a Terra, descreviam órbitas elípticas e não circulares em torno do Sol. Com este ajuste o comportamento observado daqueles corpos celestes passou a coincidir com as previsões teóricas, mas não se estabeleceu então uma justificativa matemática para tal comportamento.

Somente em 1689, com a publicação de “Princípios Matemáticos de Filosofia Natural” é que Sir. Isaac Newton demonstrou matematicamente como a gravitação do Sol atraía os planetas e produzia as órbitas elípticas descritas por Kepler.

Assim, temos um hiato de quase cento e oitenta anos entre a primeira versão da Teoria Heliocêntrica e sua consagração com os postulados de Newton.

A “Origem das Espécies” de Charles Darwin foi publicado em 1859 e tem portanto menos de cento e cinquenta anos. Talvez explicar a vida seja mais demorado do que explicar os astros, mas o equivalente criacionista às lacunas da Teoria de Copérnico resultaria no restabelecimento da crença de que era o Sol que girava em torno da Terra, e isto convenhamos, é um assunto encerrado.

No momento devido, a Ciência preencherá as lacunas de Darwin e muitas outras, e encerrará todas as polêmicas associadas a elas. Mas até lá deve estar atenta às armadilhas que encontrará pelo caminho.

Sobre a obrigatoriedade da crença

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Postado em 2/2/2005 17:36:51
por Acauan

A obrigatoriedade da crença é um dos pilares do Cristianismo e do Islamismo. Mais exigente no primeiro, devido ao dogma do único caminho e única verdade atribuídos a Jesus de Nazaré. Já a doutrina de Mohamed admite o Judaísmo e o Cristianismo como religiões verdadeiras, embora obsoletas em relação ao Islã. Posteriormente teólogos islâmicos admitiram o Zoroastrismo na lista.
Mas, tanto para Cristãos quanto para Muçulmanos, não acreditar no que suas tradições dizem ser verdades sagradas implica numa passagem só de ida e sem escalas para o inferno.

Isto não ocorre no Judaísmo por exemplo, onde a relação com Deus era uma conseqüência direta do sangue, conforme o pacto estabelecido entre Iavé e Israel através de Abraão. A crença judaica era tão intrínseca à nação que a professava, que sua própria identidade se desvanecia se apartada de sua herança teológica.

Desconheço a existência de outras religiões primitivas que condenassem explícita e prioritariamente a descrença.
O que era comum nestas religiões, depois de institucionalizadas nas sociedades que as adotaram, era condenar e punir a desobediência aos preceitos, as manifestações exteriores de desrespeito à autoridade da religião.

Isto faz sentido.
Desrespeitar preceitos é uma ação objetiva e pode ser aferida objetivamente.

Por que cargas d´água um legislador religioso iria acusar alguém de descrença se não é possível aferir no que realmente alguém acredita?
Além do mais, para as religiões pré-Cristãs, aparentemente a crença pessoal era irrelevante desde que não se demonstrasse na forma de rebeldia explícita contra a ordem religiosa estabelecida.

O Cristianismo e posteriormente o Islã invertem esta perspectiva.
A crença, mesmo que não aferível objetivamente, passa a ser a obrigação primeira do fiel, sem o que, qualquer cumprimento dos preceitos religiosos estabelecidos, por mais zeloso que seja, é tido como absolutamente inócuo.

Mais ainda.
Ambas as religiões definem que a descrença nos fundamentos de sua doutrina, por si só, justifica a condenação ao sofrimento eterno no inferno. Os atos ou o valor pessoal deixavam de ter qualquer importância ou significado sem a crença obrigatória.
A descrença elevada à condição de crime passível de pena capital, no sentido teológico e, em várias épocas e lugares, também no sentido secular.

A Reforma Protestante ampliou a abrangência desta premissa.
No cânone Católico Romano, se a descrença levava necessariamente à danação eterna, a crença, por si só, não levava a lugar algum se não fosse acompanhada das outras virtudes teologais – esperança e caridade, além da obediência às regras de vida determinadas pela Igreja Romana.

Com Lutero e Calvino ocorre uma inversão de posições relativas às religiões pré-cristãs. Nestas, a crença era subjetiva demais para ser relevante por si só quando comparada à obediência aos preceitos e ritos. A Reforma Protestante executa uma troca de lugares, na qual a obediência aos preceitos e ritos passa a ser irrelevante e a crença, e apenas a crença, passa a ser considerada como o instrumento de obtenção da graça divina. A tal da salvação pela Fé e não pelas obras.

O Fundamentalismo Cristão tomará esta regra ao pé da letra, em todos os sentidos, através da defesa da inerrância e da interpretação literal da maioria das passagens da Bíblia, completando um ciclo que se inicia nas religiões tribais, cujos ritos eram centrados em objetos e símbolos visíveis ou de alguma forma tangíveis, como o Sol, passa pelo Judaísmo, onde os símbolos e objetos religiosos diluem-se na própria identidade nacional, abstrata porém reconhecível de modo inequívoco e atinge seu ponto de ruptura no Cristianismo Primitivo, uma crença em que os objetos e símbolos situam-se num mundo totalmente espiritual, invisível e intangível. O ciclo passa pela Reforma e se fecha no Fundamentalismo Cristão, num movimento que retorna gradativamente à uma crença que não sobrevive sem objetos e símbolos materiais, visíveis e tangíveis, no caso a Bíblia e, para os neo-pentecostais, a vulgarização do milagre.

Este ciclo talvez explique, em parte, o porquê de a descrença religiosa ter deixado de ser tabu no Ocidente a partir do século XIX e principalmente no século XX, consolidando uma tendência que, originada no Iluminismo Europeu, terminou por derrubar a idéia de obrigatoriedade da crença.

Tomando por exemplo os Astecas, que, como muitos povos primitivos, tinham o Sol como representação material da divindade, temos que estabelecer a obrigatoriedade da crença num Deus solar não era uma preocupação razoável para as autoridades religiosas da Confederação pré Colombiana.
Não acreditar no Sol não é heresia, é loucura. Ele está lá no Céu, materialmente visível para qualquer um que não seja cego ou demente.

Não faz sentido instituir a obrigatoriedade da crença em algo, cuja existência se revela de modo inegável por si mesmo.

Os Judeus também não tinham tal preocupação, já que a existência de Israel era por si só aceita como prova suficiente da existência de Deus, logo, bastava olhar em torno para se ver o monumento que dava materialidade à crença.

O Cristianismo rompe esta tradição.
Seu símbolo e objeto máximo de fé, o Cristo ressuscitado, é tido como onipresente pelo dogma, mas é invisível e intangível fora dele.

Se os pagãos associavam o Sol com o deus Apolo, resta aos Cristãos associarem seu Deus a um Sol espiritual, só visível pelos eleitos.
O que é um eleito vai mudar muito de tempos em tempos dentro do Cristianismo, da definição gnóstica até a calvinista, mas o ponto é que a nova crença não podia ser sustentada por símbolos e objetos visíveis por todos, como o Sol ou a nação.

Mesmo os milagres, repetidamente anunciados ao longo da História Cristã como objetos visíveis que dão veracidade às suas crenças, só são visíveis às suas eventuais testemunhas, que são sempre numericamente poucas para exercer sobre os não cristãos o mesmo poder de convencimento que o nascer e o pôr do Sol, com extrema confiabilidade, cuidava de exercer sobre os Astecas.

Assim, o Cristianismo se desenvolve como uma religião de objetos e símbolos imateriais, invisíveis e intangíveis, cuja confiança na existência deles só era corroborada pela opção de crença do fiel, que uma vez incluído no corpo dos crentes passa a tê-los como inquestionáveis, suprimindo de si a necessidade de que lhes sejam materialmente visíveis ou tangíveis.

É nisto que se baseia, principalmente, a institucionalização da obrigatoriedade da crença no dogma Cristão.
Se negar a existência do Sol era coisa de alguém física ou mentalmente insano, negar a existência dos objetos e símbolos invisíveis da crença Cristã primitiva deveria ser coisa de quem é moral ou espiritualmente insano.

Assim, a descrença se torna dentro do meio Cristão a marca do pária, do outro, um sinal do demônio a ser temido e combatido para que não contamine o corpo místico da Igreja.
Consolida-se desta forma o segregacionismo Cristão que associa a descrença ao Mal, seja este mal relativo, produto do desconhecimento do que entendem como verdades sagradas, ou absoluto, produto direto da ação do diabo.

Quando na Idade Média o Cristianismo se torna a ideologia dominante do Ocidente, ou, mais ainda, a identidade ideológica do Ocidente, a obrigatoriedade da crença se manifesta como requisito para a aceitação social.
Numa Europa onde o Cristianismo é a única corrente de pensamento que consegue ultrapassar fronteiras e estabelecer uma identidade comum entre comunidades isoladas de um mesmo povo ou entre vários povos hostis entre si, descrer no que é Cristão significa não possuir lugar nesta sociedade, sendo a descrença reprimida antes pela certeza do isolamento do que pelo medo da punição.

Daí o fato de a grande preocupação da Inquisição em seus séculos de ativa ter sido sempre a heresia e a falsa conversão. Nunca o ateísmo como praticado hoje.
A Igreja Cristã remodelou a civilização Ocidental conforme suas próprias crenças de tal modo que criou um mundo onde estas crenças, apesar de centradas em objetos e símbolos invisíveis e intangíveis, tornaram-se para o crente tão materialmente reais quanto eram as crenças nas divindades solares e a crença judaica no Deus de Israel, razão pela qual a repressão religiosa medieval em parte se assemelha àqueles modelos por punir antes a desobediência manifesta – heresia, falsa conversão, bruxaria e comportamento relapso – do que ocupar-se em aferir e condenar a descrença pessoal não manifesta publicamente.

Com a Reforma Protestante e a cisão da Igreja Cristã Ocidental, reforça-se a condenação formal da descrença como caminho da perdição, mas se mantém a relativa despreocupação com ela, dado os ritos e sinais da religião dominante serem presentes demais para serem ignorados, mesmo continuando invisíveis seus objetos e símbolos.
Ajuda nisto o Cujus regio, ejus religio, regra que obrigava os súditos dos principados alemães a professarem a mesma religião de seu monarca, o que preservava a presença ambiental da crença Cristã e reforçava seu status de fator de identidade social. Como exemplo, cite-se que até hoje é a religião o único fator relevante que distingue alemães de austríacos. Aqueles quase todos luteranos e estes quase todos católicos romanos.

Enquanto isto, o Islã seguiu sua própria trajetória de ascensão e declínio como Império secular e religioso, diferenciando-se da Cristandade no modo como tratava a descrença por estabelecer uma legislação rígida e detalhada, a Sharia, onde os limites admissíveis da incredulidade eram claramente definidos e, além deles, era mais prudente ao incrédulo se conter do que arriscar. Judeus e Cristãos usufruíam de tolerância especial, embora sobretaxados e mantidos em graus diferentes de segregação conforme o local e época.

Mas o que define o Islã é sua teologia monolítica, imune à heresia e ao cisma, e a imersão completa que exige de seus fiéis no cumprimento de seus rituais, que, muito além do exercício privado, estendem seus preceitos para toda a vida pública da comunidade muçulmana.

De novo a situação em que os ritos e sinais da crença Islâmica por serem onipresentes, formadores de identidade e necessários à aceitação social fazem com que a descrença seja tida dentro da comunidade como a opção dos loucos que se recusam a ver o Sol.

Tanto entre os Cristãos quanto entre os Islâmicos, ninguém mais parecia se lembrar que o Sol em questão não era visível para ninguém, nem para eles próprios.

É o Iluminismo Europeu que cumpre este papel de apontar para o Céu e dizer que o único Sol visível lá é a estrela em torno da qual a Terra orbita.
A combinação dos avanços da Ciência Experimental e do racionalismo filosófico trouxe de volta a idéia, há muito abandonada pelos Cristãos, de que as crenças deles não eram uma realidade cósmica, mas opiniões institucionalizadas.

No campo político, as Revoluções Americana e Francesa criam o Estado Laico, que desvinculou a identidade nacional da religião, estabelecendo um ambiente público regido agora por leis e princípios civis e não teológicos.
Leis e princípios civis devem ser necessariamente objetivos, logo, a crença que por séculos foi necessária para garantir o entrosamento e a aceitação do indivíduo na sociedade perdeu subitamente esta condição privilegiada.

Crer ou descrer passava a ser uma questão de foro íntimo e uma escolha pessoal. E só.

A crença reassume sua condição de Fé e descrer deixa de ser loucura ou absurdo para se tornar apenas uma opção entre concluir conforme as evidências objetivas analisadas ou, desprezando estas, aceitar as crenças como dogmas, verdades reveladas.

Para os que optam pelo racionalismo, o século XIX oferece as opções do Darwinismo e do materialismo.
Invertendo a tradição de séculos passados, agora é a crença religiosa que é apresentada como absurda e, em alguns casos, louca, despertando reações desencontradas em segmentos cristãos, que ora invocavam as citações bíblicas que denunciam a sabedoria de Deus como inalcançável à razão humana, ora tentavam provar que a razão confirmava suas crenças melhor do que a própria Fé.

Neste cenário, a religião Cristã ocidental, com sua divisão protestante fragmentada em miríades de seitas e sua divisão Católica Romana una, porém presa à inércia de sua paquidérmica macroestrutura, tenta reagir ao avassalador avanço das novas ideologias, que amparadas pelo fascínio despertado pelo progresso técnico ocupam cada vez mais espaço na sociedade.

A Cristandade, que na época medieval era o amálgama ideológico do Ocidente e temia apenas a heresia, agora não podia sequer identifica-la em seu meio. O que era heresia para um segmento Cristão era o culto oficial de outro segmento e vice-versa.

Numa realidade em que a heresia não pode mais ser combatida ou sequer identificada, as lideranças Cristãs, sentindo-se acossadas pelo avanço do racionalismo, voltam a acusar a descrença, na forma do ateísmo, agnosticismo e materialismo de ser o grande fator de perdição moral e espiritual do Homem.

Dois mil anos depois, o Cristianismo volta às suas origens, quando tentava convencer pagãos e bárbaros de que as coisas invisíveis de que falava eram reais, usando como ferramenta de convencimento as promessas de recompensas idílicas para os crentes e de indescritíveis tormentos para os que se recusassem a acreditar.
Quando a Igreja Cristã dominou o Ocidente, não era mais preciso convencer ninguém, apenas manter e administrar a crença já consolidada e protege-la contra a heresia.

Agora, no novo e terrível cenário, os descrentes voltam a ser preocupação e sua recusa em dizer que vêem os objetos e símbolos invisíveis da crença Cristã não pode mais ser desdenhada como excentricidade de tolos, devendo ser combatida como amoralidade de ímpios.

Não mais capaz de atar suas crenças à âncora da unanimidade social, a reação Cristã tenta associar a descrença à imoralidade, ignorância, rebeldia ou a quaisquer outros valores negativos que desestimulem fiéis de apostatarem ou motive incrédulos a converterem-se.

O Fundamentalismo surge como um dos equívocos desta reação, tentando a via improvável de defender a obrigatoriedade da crença, não pelo apelo ao significado moral dos símbolos invisíveis do Cristianismo, mas pela tentativa de convencer o máximo possível de pessoas de que estes símbolos não só são visíveis como materiais, estando todos indicados ou representados na Bíblia, cujo conteúdo inerrante devia ser interpretado, na maioria dos casos, literalmente.
 
Com esta tentativa, os Fundamentalistas Cristãos tentam materializar os símbolos da crença. Mas não na identidade nacional, como foi em Israel ou na identidade social, como foi na Idade Média.
Eles tentam criar um culto cristão solar, colocando a Bíblia no lugar do Sol e apontando-a como se apontassem o nascente, toda vez que sua crença é questionada.
A diferença, nunca percebida pelos Fundamentalistas, é que o Sol brilha sobre crentes e descrentes, enquanto livros sagrados só iluminam os que neles crêem.

Seu cristianismo solar bíblico naufraga tragicamente na aventura insólita do Criacionismo Científico, que ansiava trazer de volta os tempos de primazia do pensamento Cristão, quando toda tentativa de nega-lo implicava em risco de ver seus argumentos expostos ao ridículo, destroçados pela sabedoria dos Escolásticos. Tudo que os fundamentalistas conseguiram foi fazer com que a crença travestida de Ciência se tornasse motivo de risos e comentários jocosos nas Universidades e centros do saber.

A obrigatoriedade da crença havia sido sepultada no Ocidente, e o Fundamentalismo Cristão assumiu o papel de jogar-lhe a pá de cal.

Católicos não praticantes

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Publicado originalmente em 28/2/2004 20:06:22
Por Acauan

A cara da religiosidade brasileira se mostra quando você pergunta a alguém qual é a sua religião e ele responde, com a maior cara-de-pau, que é Católico não praticante.

Quem já viu alguém se identificar como evangélico não praticante, judeu não praticante ou muçulmano não praticante?

Não estou dizendo que inexistam não praticantes nestas religiões. Eles não só existem como são abundantes nos países em que suas respectivas crenças são majoritárias. O número de judeus não praticantes em Israel é muito superior ao que faria supor a imagem de um país historicamente relacionado à fé de Abraão e Moisés. Um crentão brasileiro ficaria escandalizado com os hábitos de seus irmãos de fé residentes em New York e por aí vai.

A diferença é que você não vai ouvir alguém dizer que é presbiteriano não praticante. Evangélicos nesta situação costumam citar a igreja que freqüentam e comentar que no momento estão afastados dela por algum motivo ou coisa parecida.

Já o catolicismo brasileiro é uma festa, a maioria é não praticante, se declara assim, não liga a mínima mas, estranhamente, te olham torto se você disser que é ateu.

O engraçado é que esta turma toda não sabe, e a Santa Madre não conta, que a grande maioria dos católicos que se dizem não praticantes irão todos para o purgatório após a morte, isto na melhor das hipóteses, pois os que além de não praticantes das obrigações religiosas não praticaram as chamadas virtudes teologais irão para o inferno mesmo.

Detestaria dizer isto para eles, mas os católicos têm inferno também, igualzinho aos crentes, só mudou o discurso – em vez de lago de fogo com choro e ranger de dentes (brrr... que medo...) a Santa Sé define o inferno como ausência de Deus. Mas não fiquem alegrinhos não, podem ter certeza que “ausência de Deus”, para a Igreja Católica, boa coisa não é.

Mas como eu ia dizendo, os católicos não praticantes vão para o purgatório porque a Santa Madre é tão preocupada com a obra de Deus que achou que os dez mandamentos dele não eram suficientes e fez mais cinco:
Mandamento da Igreja Católica Apostólica Romana:

1. Participar da missa nos domingos e festas de guarda.
2. Confessar-se ao menos uma vez cada ano.
3. Comungar ao menos pela Páscoa da Ressurreição.
4. Fazer uma só refeição completa e nada de carne, nos dias que a Igreja determina.
5. Pagar o dizimo segundo o costume.



Ahá! Você não sabia que a Igreja Católica também ordena o dízimo?
Os católicos não praticantes também não sabem (os praticantes quando sabem em geral não pagam, viram porque é melhor ser católico do que evangélico. Pensando bem, é melhor não ser nem um nem outro).

Quem é católico não praticante não obedece aos mandamentos da Igreja, quem não obedece aos mandamentos da Igreja incorre em pecado venial (alguém aqui sabe o que é pecado venial? Os católicos não praticantes também não sabem) e quem morre em pecado venial vai para o purgatório, a menos que se confesse antes de morrer, mas se ele se confessasse seria católico praticante.

Mas não pensem vocês que os católicos não praticantes não são devotos.

Pelo contrário, eles são extremamente devotos, só que da religião dos outros.
Nenhum Católico não praticante (e muito poucos praticantes) sabe o que é a Patrística, mas um montão deles conhece a obra de Allan Kardec décor e salteado, sabe a diferença entre Babalaorixá e Yalaorixá (eu não sei), sabe do que Iemanjá gosta e deixa de gostar ou pode mapear os seus chacras de olhos fechados.

Católico não praticante é tão não praticante que quando resolve virar praticante sai merda.

Foi o que ocorreu com a Renovação Carismática Católica, grupo de católicos que se empenharam tanto em valorizar a prática religiosa que viraram evangélicos pentecostais.

Católicos Praticantes Demais

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Publicado originalmente em: 09/05/2007 às 23:55


Por Acauan

Certa vez escrevi sobre os católicos não praticantes, concluindo que católico brasileiro tem tanta vocação para a não prática, que quando tenta praticar algo dá errado.
Citei o exemplo da Renovação Carismática Católica, cheia de gente que não praticava sua própria religião e se tornou praticante fervorosa da religião dos outros.

Existem outros católicos que chamam a atenção por de fato o serem, costume que o tempo parece ter tornado fora de moda a ponto de surpreender quando identificado.

Meu grupo favorito, claro, é a Opus Dei.

Esqueçam as bobagens do Dan Brown sobre monges assassinos.
A Obra não tem monges.
Se tiverem assassinos, espero que nenhum deles leia este texto.

A Opus Dei é prelazia pessoal da Igreja Católica, instituição que reúne sacerdotes e leigos, comandada por um prelado nomeado pelo Papa e subordinado diretamente a ele.

Uma parte dos leigos, chamados numerários, vive nos centros da Opus Dei e dividem-se entre suas atividades seculares e o cumprimento dos preceitos da prelazia, que incluem preservação da castidade e auto-flagelação.
Não que a grande maioria aqui fora veja muita diferença entre auto-flagelação e castidade, mas para demonstrar que têm opinião diferente, os numerários exercitam a primeira com o uso diário do cilício, que, para quem não sabe, é um instrumento machucador de coxas.

Esquisito pacas, mas, como se diz, o que é de gosto regala a vida, mesmo que avermelhe as pernas.

Apesar de os numerários serem frequentemente mostrados como a cara da Opus Dei, a maioria de seus membros é de leigos casados, chamados supernumerários.
Não sei a origem do nome, mas deve ter algo a ver com o número de filhos, que eles têm aos montes, como bons seguidores das orientações da Santa Sé quanto a métodos contraceptivos.

De minha parte nada contra. Eu também teria mais filhos, na medida em que pudesse pagar uma excelente educação escolar a todos.
Só que fica a impressão de que o pessoal da Opus exagera.
Apesar disto são apenas lendas os relatos de que o toque de uma camisinha provoca nos supernumerários queimaduras semelhantes às que os crucifixos causam nos vampiros.

Abundam por aí teorias da conspiração envolvendo a Opus Dei.
A minha é que eles querem conquistar o mundo através da superioridade numérica.
Pelas minhas contas, comparando as taxas de natalidade dos supernumerários com a média mundial, os quadros da Opus Dei serão maioria da população do mundo por volta do século XXIII.
Quem associa este século com naves estelares deve começar a admitir a possibilidade de elas receberem nomes como USS São Josemaría Escrivã, ou coisa parecida.

Depois da Opus vêm os Arautos do Evangelho, que ganharam vida própria de uma dissidência da TFP – Tradição, Família e Propriedade, de Plínio Corrêa de Oliveira, aquela que em décadas passadas saia pelas ruas agitando estandartes, distribuindo panfletos e gritando contra o comunismo ateu.

Os Arautos do Evangelho são inconfundivelmente reconhecíveis por se trajarem com um uniforme clérigo-militar que inclui botas de montaria, hábitos, correntes, escapulários e brasões católicos. Lembra uma combinação de figurinos do Ivanhoé e da Noviça Voadora.

Seus membros vivem sob rígida disciplina de inspiração militar, que estabelece regras escritas e detalhadas até para as pequenas rotinas cotidianas, como lavar as mãos.

A ordem reinante foi resumida por um de seus líderes, que afirma que para eles "se o Papa disser que o leite é preto, então o leite é preto e se o Papa disser que o carvão é branco, então o carvão é branco."
Considerando que os Arautos do Evangelho mantém uma banda sinfônica, tomara que não estendam este relativismo visual para o campo auditivo.

Certa vez compartilhei um recinto com uma turminha de Arautos.
Meus instintos tupis ficaram alertas por um tempo, ante a possibilidade de um deles apontar para mim e gritar para os outros "- vejam, é aquele índio metido a besta que escreve textos engraçadinhos sobre a Santa Madre Igreja ".

Mas ainda não foi daquela vez.

Tenho dúvidas quanto aos Focolares.
Parecem ser católicos praticantes demais, mas com um discurso legal, humanista, tolerante e ecumênico.
Daí as dúvidas.
Além disto, defendem um troço que chamam de "economia de comunhão na liberdade".
Não entendi exatamente o que é, mas acho que a TFP gritava contra coisa parecida.

A Montfort é muito chata.

E tem os catecumenatos.
Que eu não sei bem como são e sobre os quais não tenho opinião nenhuma, exceto que poderiam ter escolhido nome melhor.
E que devem ser católicos praticantes demais.