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A fantasia da pureza ideológica

Existe uma razão para a “nova direita” se chamar, bom, a “nova direita”. Como quase toda linha de pensamento político, ela nasceu em repudiação a algo – no caso, a “velha direita” com seus conservadores religiosos e neocons. Em termos práticos, é como Donald Trump dentro do partido republicano.

 Sim, de certa forma, a ascensão de Trump foi uma repudiação do “old and busted” conservadorismo em favor de uma “new hotness” e a briga interna durante as primárias e depois a atuação dos “Never Trump” mostram bem isso. Mas a eleição passou e agora o homem tem que governar ao lado de um partido, cheio de membros falhos, mas que ainda assim têm muito a ensinar ao jovem presidente de 70 anos.

 É hora de deixar um pouco os memes de lado e pensar praticamente. Trump tem enfrentado obstáculos para implementar a sua agenda, todos sabíamos que isso ia acontecer – eu, inclusive, já acho que ele conseguiu fazer muito mais coisa do que imaginava, mas divago. A política é bagunçada e só um ditador é capaz de executar ações com a pureza que muitos parecem esperar de Trump. Ceder é preciso e muitas vezes algo positivo.

 Isso é reflexo não só da realidade da atual administração americana, mas da nova direita como um todo – nós nos tornamos bem intolerantes. Enquanto apontávamos o dedo para os autoritários do outro lado, muitos acabaram não percebendo, mas se tornaram iguais a eles. Não existe pureza ideológica no mundo real, dificilmente você vai encontrar um líder que reflita 100% os seus valores e opiniões – diabos, isso geralmente é a razão que faz as pessoas entrarem na vida pública pra começo de conversa. É preciso parar com os testes de pureza e aprender a debater e administrar as diferenças.

 O fenômeno da fiscalização de pureza ideológica pôde ser observado em diversas ocasiões no decorrer de 2017 – dos primeiros atos, e indicações, do Governo Trump à postura de João Dória em São Paulo, passando pelas posições polêmicas de Marine Le Pen na França. Sempre haverá um buraco na armadura. O líder nacionalista pode não ser tão socialmente conservador quanto você queria e vice-versa. Eles inevitavelmente terão que se unir a agentes políticos de atuação contrária aos seus valores, eles terão que ceder e depois terão que ceder um pouco mais. É assim que a política no mundo real funciona.

 É preciso ter vigor e certeza nos seus valores pessoais, mas tão importante quanto é saber reconhecer que nem sempre as pessoas vão optar por segui-los como uma cartilha. Essa é a armadilha dos rótulos ideológicos. Muitas vezes ao se prender em uma ou duas questões, acaba se prejudicando uma vitória que provavelmente traria muito mais coisas positivas do que negativas ao seu olhar. Você deve eleger prioridades e basear o seu voto nisso, mas é preciso saber que a política nem sempre é uma cruzada de pensamento.

 É um fino equilíbrio que só você, intimamente, é capaz de alcançar. E não podemos nos enganar, assim como políticos, nós nos contradizemos e relativizamos questões de acordo com as necessidades de cada momento. E pior: erramos. Nem sempre surfamos a crista da onda da surpresa eleitoral. O quanto você se envergonha depois disso é reflexo direto da certeza que você mantinha antes.

 Veja bem, eu não estou pedindo para você abrir mão de seus valores, principalmente aqueles centrais ao seu caráter e visão de mundo. O limite de cada um é diferente e você não é obrigado a ignorar o seu por ninguém. Líderes devem ser questionados, debatidos, esmiuçados sempre. Mas é preciso manter o contato com a realidade e sempre deixar a humildade intelectual por perto.

 Trazendo pra uma questão mais próxima, seja você Bolsonaro ou Doria, não adianta ficar se esforçando pra minar o outro. No fim do dia, ambas as opções lhe trarão mais bem do que mal. Eu tenho minhas reservas e certezas com os dois e votaria facilmente em ambos, mas, no momento, o que mais importa pra mim é quem tem mais chances de ganhar. Vencer. Por que a alternativa, amigo, é muito, mas muito pior.



http://loly.systems/2017/08/a-fantasia-da-pureza-ideologica-bolsonaro-doria/
  “Não fortalecerás os fracos, por enfraquecer os fortes.    Não ajudarás os assalariados, se arruinares aquele que os paga.    Não estimularás a fraternidade, se alimentares o ódio.” [Abraham Lincoln]
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