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Três fenômenos aterrorizantes produzidos pelo seu cérebro

O cérebro humano é a máquina biológica mais complexa do Universo Conhecido, mas ao mesmo tempo é uma imensa gambiarra evolucionária, camadas e mais camadas de novas funções atuchadas de qualquer jeito. Uma boa analogia é um carro que tem que continuar funcionando enquanto um mecânico tenta instalar novas peças de forma aleatória. Com tempo suficiente você acaba com um turbo no motor, mas o motor de arranque antigo continua lá.

Isso resulta em um monte de bugs, que vão dos mais sérios, como doenças mentais tipo esquizofrenia, TOC e veganismo, até falhas inofensivas e hilárias, como o Reflexo Fotônico de Espirro1, uma condição genética2 ainda sem explicação definida devida a qual algo entre 18% e 35% da população mundial espirra quando exposta a uma luz forte.

Você já deve ter passado por isso e/ou com certeza já viu acontecer, a gente sai de uma sala fechada pra uma área no sol, e espirra. E pra complicar mais ainda a vida do pessoal da construção social, 65% dos afetados são mulheres.

Hoje vamos conhecer três dessas condições, bem menos inofensivas.

1 – Hipnose de Estrada

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Imagine a situação: Você está dirigindo para o trabalho, na mesma rua, na mesma praça, o trajeto que fez um milhão de vezes. Ai você dá uma piscada e percebe que está a quilômetros de onde estava. De alguma forma você percorreu boa parte do trajeto em uma fração de segundo. Abdução alienígena Um portal dimensional? Não, é algo bem mais aterrador, você foi vítima da Hipnose de Estrada.

Descrita pela primeira vez em um artigo de 19213, a condição ocorre quando a pessoa está cansada, entediada e dirigindo por uma região conhecida. Sua mente vai perdendo o interesse, a entrada sensorial é a mesma de sempre, chega um momento em que é gerado um estado dissociativo e seu cérebro desliga a parte consciente, tipo “não tem nada de interessante, vou tirar um cochilo”.

Só que não é sono, seu cérebro continua funcionando ativamente, cortex visual, cortex motor, toda a parte que cuida da tarefa de dirigir o carro está funcionando muito bem. É completamente diference de cochilar no volante.

Ou seja: Você não está no controle da sua mente. Você, sua consciência é só parte do todo, o sistema operacional do seu cérebro decide que naquele momento a consciência não é útil, então te desliga. Assustador o bastante?

2 – Segmentação de Eventos

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O nome não soa grande coisa, mas tem a ver com algo que sabemos muito pouco ainda: Como memórias são estruturadas no cérebro. Sabemos ao menos que nós não guardamos frames, não há nenhum algoritmo de compressão armazenando nossa vida a 24fps. Nós guardamos idéias e conceitos, muito mais do que imagens. Você pode ser incapaz de descrever qualquer detalhe sobre uma pessoa mas se ver uma foto, você a reconhece. As associações também não são temporais e lineares. Você lembra com facilidade dos cheiros da sua infância, mas duvido que lembre da cara do vilão do seriado que você viu 12 dias atrás.

Uma das coisas que a gente sabe é que nossa memória é orientada a eventos4. Nosso relógio interno é uma bela porcaria, evolucionariamente não há vantagem em contar tempo com precisão, mas há vantagem em lembrar que naquela clareira você foi atacado por leopardos. QUANDO, não interessa.

Por isso o cérebro trata eventos como blocos de memória discretos, e quando dá um por encerrado, escolhe se vale a pena salvar como memória permanente ou se é algo trivial. Conforme for, a informação é apagada, e quando a gente volta a ela, às vezes dá FILE NOT FOUND.

O problema está no que o cérebro caracteriza como um evento, às vezes o simples fato de atravessar uma porta para um ambiente diferente é o suficiente pra ativar o módulo FIM DE EVENTO, e o resultado é que a gente pára na porta pensando “o que que eu vim fazer aqui mesmo?”

Esse tipo de amnésia é bem comum, quantas vezes você já não entrou em um cômodo pra buscar alguma coisa ou falar com alguém e esqueceu o que veio fazer ali no momento em que atravessou a porta?

Esse efeito foi comprovado através de experimentos pelo Professor Gabriel Radvansky, Depto de Psicologia da Universidade de Notre Dame5. Ele criou dois ambientes onde as cobaias (provavelmente estudantes de graduação, calma, ratos são caros) deveriam executar tarefas simples como pegar objetos e movê-los entre duas mesas.

Em um dos ambientes toda a tarefa era feita em uma única sala. No outro ambiente a cobaia tinha que passar por várias portas, atravessar cômodos diferentes e então realizar a tarefa. As distâncias perseguidas eram as mesmas, mas entre os que passavam por portas houve uma nítida queda na quantidade de operações que conseguiam se lembrar. O cara levava o cubo laranja da mesa 1 pra mesa 2 mas quando pegava outro objeto e atravessava a porta, não lembrava mais da cor do cubo, por exemplo.

Portanto, não há problema nenhum com você, quando está parado de frente à geladeira, olhando sem lembrar o que veio pegar. É apenas seu primitivo cérebro primata, programado pra vida nas savanas tendo que se virar pra funcionar em um ambiente totalmente artificial quanto uma casa humana.

Seu cérebro é normal (estou sendo otimista aqui), ele está apenas organizando as memórias do jeito que sempre fez, ele não tem culpa se você construiu uma civilização pra confundir o coitado.

3 – Pensamentos Intrusos

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Esse fenômeno é bem complicado, envolve um monte de estigmas e considerações morais, e por ser recorrente em doenças como TOC, mas acredite, todo mundo tem pensamentos intrusos de vez em quando.

Sabe quando você está passando no metrô, vê alguém mais na porta e pensa que poderia empurrá-la na linha do trem? Claro que você não quer fazer isso, e não faz, mas o pensamento passa pela sua cabeça. Um pensamento intruso muito comum é quando a pessoa está em um lugar muito alto e pensa “e se eu pulasse? Como seria? É tão simples, só subir no parapeito, dar um impulso…” às vezes a pessoa até ensaia um movimento de corpo, mas -essa é a parte importante- sem nenhuma intenção real de suicídio, sem nenhum quadro de depressão.

Pensamentos intrusos costumam quase sempre quebrar uma ordem social, e tem a ver com assuntos ou pessoas próximas, por isso 50% das mães têm pensamentos intrusos onde estão esganando seus bebês ou trancando-os no microondas. Hanna Resse, PhD em psicologia vivia imaginando6 como seria jogar seu bebê do alto da escada, coisa que ela nunca fez, a idéia em si é um absurdo.

Podemos imaginar os pensamentos intrusos como um diabinho no ombro dando terríveis conselhos, como derrubar uma estante em uma loja de cristais. Algumas vezes, conselhos bem terríveis, muitos pensamentos intrusos envolvem sexo, de forma bem dark, sem safewords.

Uma prova de que o fator social é importante, é a grande quantidade de pensamentos intrusos envolvendo religião. Muita gente tem desejos repentinos de agir na igreja da mesma forma que o Kurgan em Highlander.



O sujeito, ou melhor, o cérebro dele sabe que aquilo é errado, então solta o pensamento mais absurdo possível. Às vezes coisas simples desencadeiam pensamentos intrusos, uma pessoa que pega uma faca de churrasco daquelas estilo Crocodilo Dundee tem razoáveis chances de imaginar por um segundo o que aconteceria se ela espetasse alguém.

Isso é totalmente normal, ninguém é psicopata sociopata sexopata por ter pensamentos intrusos. Por mais estranho que pareça, se você pegar no peito da gostosinha do ônibus você é um molestador criminoso. Se você passa a viagem olhando e babando pros peitos dela, você é um pervertido, mas se você nem reparou direito na guria, olhou de relance e visualizou a moça nua amarrada em uma mesa, com uma gag ball e sendo torturada por vários vibradores japoneses, você é perfeitamente normal.

Como é normal o que os franceses chamam de L’appel du vide, o Chamado do Vazio. É aquela sensação que a gente tem dirigindo em uma estrada na montanha que basta uma girada brusca do volante e caímos num despenhadeiro. É o janelão de vidro que um empurrão mais forte pode quebrar. Não é um pensamento suicida per si, esse tipo de pensamento ocorre principalmente com gente 100% em dia com a carteirinha de não-napoleão. Não há desejo de se matar, há apenas a atração pela facilidade da coisa.

Os pensamentos intrusos podem, claro, indicar problemas reais, mas nesses casos eles são somente um sintoma, as pessoas com TOC e outras doenças se focam totalmente nesses pensamentos, tentam combatê-los ou obedecê-los, aí o sujeito desiste de andar de metrô pra não empurrar a Zoe Barnes, proíbe amigos com filhos de o visitarem com medo de um pensamento mandar que esganem o moleque, e quando o sujeito vê a vida dele está toda tolhida pelos pensamentos intrusos.

Que, como não podem ser detidos, se diversificam. Seu cérebro vai achar um jeito de te chocar. E aí há duas hipóteses que vejo como prováveis: Civilização é uma construção social, é algo que o cérebro tem que se programar pra respeitar, do contrário a gente estaria rasgando com os dentes a garganta do sujeito que demora a pagar o ônibus, e mulheres estariam matando os filhos das mulheres que copulam com os machos que elas estão interessadas, ocorrência comum entre primatas, mais rara entre humanos.

Talvez os pensamentos intrusivos sejam uma espécie de válvula de escape do cérebro, uma forma das partes primais se manifestarem sem causar dano. Seria uma versão subconsciente da catarse dos filmes de zumbi, onde é ok explodir a cabeça do vizinho se ele quiser comer seu cérebro.

A outra hipótese é que esses pensamentos existam como uma espécie de calibração moral, do cérebro verificando se estamos funcionando dentro dos parâmetros socialmente aceitáveis. Seriam um choque de realidade, pra gente perceber que não somos tão ruins assim.

O único perigo é atribuir importância demais aos pensamentos intrusivos. Eles podem se tornar uma obsessão, pessoas entram em depressão por causa de pensamentos intrusivos de cunho religioso, acham que estão duvidando da própria fé. Casos de depressão pós-parto são agravados quando pensamentos intrusivos convencem a mãe de que ela é um fracasso.

A melhor forma de lidar com esses pensamentos é deixar que eles sigam seu curso. Olhou pro irmãozinho e imaginou por um segundo que estava dançando pelo quarto com os intestinos dele? Curta o momento, alguma coisa ele fez! O pensamento vai passar e você não se sentirá mal. Outra dica é… contar pra alguém, de preferência uma pessoa próxima, mas se for preciso há um grupo no Reddit só pra isso.



Bibliografia:
1 – ACHOO Syndrome – Dean, Laura – Medical Genetics Summaries, 15/10/2012

2 – Autosomal dominant compelling helio-ophthalmic outburst syndrome (photic sneeze reflex). Clinical study of six Spanish families – García-Moreno JM, Páramo MD, Cid MC, Navarro G, Gamero MA, Lucas M, Izquierdo G.

3 – Traffic and Transport Psychology: Theory and Application – Underwood, Geoffreu

4 – Event Boundaries in Perception Affect Memory Encoding and Updating – Khena M. Swallow, Jeffrey M. Zacks, and Richard A. Abrams

5 – Walking through doorways causes forgetting: Further explorations – Radvansky GA, Krawietz SA, Tamplin AK.

6 – Intrusive Thoughts: Normal or Not? – Hanna Reese, PhD

https://contraditorium.com/2018/04/03/tres-fenomenos-aterrorizantes-produzidos-pelo-seu-cerebro/
  “Não fortalecerás os fracos, por enfraquecer os fortes.    Não ajudarás os assalariados, se arruinares aquele que os paga.    Não estimularás a fraternidade, se alimentares o ódio.” [Abraham Lincoln]

Comentários

  • Fernando_SilvaFernando_Silva Administrator, Moderator
    editado April 5
    Descrita pela primeira vez em um artigo de 19213, a condição ocorre quando a pessoa está cansada, entediada e dirigindo por uma região conhecida. Sua mente vai perdendo o interesse, a entrada sensorial é a mesma de sempre, chega um momento em que é gerado um estado dissociativo e seu cérebro desliga a parte consciente, tipo “não tem nada de interessante, vou tirar um cochilo”.

    Só que não é sono, seu cérebro continua funcionando ativamente, cortex visual, cortex motor, toda a parte que cuida da tarefa de dirigir o carro está funcionando muito bem. É completamente diference de cochilar no volante.
    Já me aconteceu. Dirigi por uns 10km totalmente apagado e só acordei porque o carro da frente freiou e eu tive que reagir de repente.

    Também lembro de uma estrada na França que era totalmente monótona e reta, por isso instalaram umas figuras geométricas de cores berrantes ao longo dela, de tanto em tanto, para acordar os motoristas.
  • PercivalPercival Member
    Fernando_Silva escreveu: »
    Descrita pela primeira vez em um artigo de 19213, a condição ocorre quando a pessoa está cansada, entediada e dirigindo por uma região conhecida. Sua mente vai perdendo o interesse, a entrada sensorial é a mesma de sempre, chega um momento em que é gerado um estado dissociativo e seu cérebro desliga a parte consciente, tipo “não tem nada de interessante, vou tirar um cochilo”.

    Só que não é sono, seu cérebro continua funcionando ativamente, cortex visual, cortex motor, toda a parte que cuida da tarefa de dirigir o carro está funcionando muito bem. É completamente diference de cochilar no volante.
    Já me aconteceu. Dirigi por uns 10km totalmente apagado e só acordei porque o carro da frente freiou e eu tive que reagir de repente.

    Também lembro de uma estrada na França que era totalmente monótona e reta, por isso instalaram umas figuras geométricas de cores berrantes ao longo dela, de tanto em tanto, para acordar os motoristas.

    Por isso aquelas cenas de filme americano de quando o cara dirige de noite e quase sofre um acidente. Acho que o filme Debi e Loide tem uma cena assim.
      “Não fortalecerás os fracos, por enfraquecer os fortes.    Não ajudarás os assalariados, se arruinares aquele que os paga.    Não estimularás a fraternidade, se alimentares o ódio.” [Abraham Lincoln]
  • Fernando_SilvaFernando_Silva Administrator, Moderator
    Percival disse:
    Por isso aquelas cenas de filme americano de quando o cara dirige de noite e quase sofre um acidente. Acho que o filme Debi e Loide tem uma cena assim.
    Com a ressalva de que o cara, no caso do artigo citado, não está cansado e sonolento, mas sim desligado da realidade. Ele continua dirigindo normalmente, só que no piloto automático. O problema, como já me aconteceu, é continuar sempre em frente em vez de pegar uma saída ou virar uma esquina e, de repente, perceber que está no lugar errado.
     
  • PercivalPercival Member
    Fernando_Silva escreveu: »
    Percival disse:
    Por isso aquelas cenas de filme americano de quando o cara dirige de noite e quase sofre um acidente. Acho que o filme Debi e Loide tem uma cena assim.
    Com a ressalva de que o cara, no caso do artigo citado, não está cansado e sonolento, mas sim desligado da realidade. Ele continua dirigindo normalmente, só que no piloto automático. O problema, como já me aconteceu, é continuar sempre em frente em vez de pegar uma saída ou virar uma esquina e, de repente, perceber que está no lugar errado.
     

    Lembro uma vez que saindo de Xerém para ir para Caxias com uns amigos meu colega se distraiu e perdeu o desvio. Como era uma via de mão única e acabamos tendo que ir pra Petrópolis pra depois voltarmos.
      “Não fortalecerás os fracos, por enfraquecer os fortes.    Não ajudarás os assalariados, se arruinares aquele que os paga.    Não estimularás a fraternidade, se alimentares o ódio.” [Abraham Lincoln]
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