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Sete Dias de Quiroga

AcauanAcauan Administrator, Moderator
editado May 11 em Religião é veneno
Publicado originalmente em 29/4/2005 20:39:59

Por Acauan

O que dizer do texto abaixo:
É selvagem nossa humanidade? 

No céu, Marte e Plutão se relacionam, o mesmo fazem Vênus e Urano, e a Lua, quase cheia, será vazia das 13h46 às 23h25, horário de Brasília.
Aqui na Terra, nossa humanidade reconhece claramente sua liberdade, pois tudo é permitido nos desejos, o mesmo não acontecendo na realidade concreta. Declara-se aos quatro ventos, com pomposos ares de lógica, que se não houvesse limitações ou severas regras morais, nossa espécie se esbaldaria em excessos. Todavia, o astrólogo aqui declara, sem pompa nem circunstância, que nossa humanidade só é selvagem por causa da severidade excessiva com que é tratada. É um tormento atroz saber-se livre para desejar, mas limitada para realizar o que deseja. Assim é que, em vez de as pessoas se ajudarem mutuamente a serem felizes, e livres para desejar e realizar, pelo contrário, vigiam-se para ninguém sobressair-se ou ser alegre, dado a alegria ser sinal inconfundível de liberdade.

Oscar Quiroga
Publicado em O Estado de São Paulo de sábado, 23 de Abril de 2005


Vocês eu não sei, em mim o parágrafo acima, de autoria do astrólogo Oscar Quiroga, me despertou uma tremenda dúvida existencial:

- Por que este cara é pago para escrever e eu não?

As demais dúvidas não têm a mesma relevância filosófica, mas me motivaram a dar uma olhada na coluna Astral, de horóscopo, publicada diariamente em O Estado de São Paulo, para conferir se é sempre assim ou se dei o azar de ler justo no dia em que o autor cheirou cola e comeu a lata antes de escrever.

Após sete dias acompanhando a tradução Quiroguiana do que os astros dizem sobre a humanidade, cheguei à conclusão de que melhor seria se os astros permanecessem de boca calada e parassem de dizer asneiras sobre assuntos dos quais não entendem bulhufas.

Isto fica ilustrado nos prólogos do horóscopo, nos quais, antes de dizer o que o nativo de cada signo deve fazer da vida naquele dia, o cartógrafo zodiacal diz o que a espécie humana deve fazer da vida naquele dia.
Como quando, no título, ele pergunta “É selvagem nossa humanidade?“, a resposta para mim é fácil – A minha é. Sou um Índio.

Já o astrólogo tem uma interessante teoria a respeito, cujo desenvolvimento passa pela revelação de que rola uma viadagem cósmica entre Marte e Plutão, para concluir que a humanidade só é selvagem porque seus desejos são reprimidos.

Não posso dizer nada sobre esta idéia de jerico que Voltaire já não tenha dito muito melhor em O Ingênuo, que, através do rude protagonista hurão, ridicularizava o bom selvagem de Rousseau, mostrando justamente que a civilização só é possível quando os desejos individuais são reprimidos para se ajustar às necessidades do bem comum.

Quiroga defende o oposto.

Reconheço que perder tempo contestando tais coisas é assinar atestado de não ter o que fazer, mas que cargas d’água o cara quis dizer com o trecho abaixo?
É um tormento atroz saber-se livre para desejar, mas limitada para realizar o que deseja. Assim é que, em vez de as pessoas se ajudarem mutuamente a serem felizes, e livres para desejar e realizar, pelo contrário, vigiam-se para ninguém sobressair-se ou ser alegre, dado a alegria ser sinal inconfundível de liberdade.


Tudo bem. O cara é astrólogo, assim como o Walter Ligue Djá Mercado e o Olavo de Carvalho.
Mas nem no mundo da lua seria admissível tamanha confusão mental.

O que limita nossa capacidade de realizar nossos desejos não é a vigilância dos que querem impedir a alegria e liberdade alheias, mas o óbvio ululante de que se nossos desejos são livres, a realização deles depende de coisas e condições que nem sempre estão disponíveis.
É o confronto entre a imaginação ilimitada que produz o desejo e as limitações da realidade que os restringem que estabelece o grau em que desejos devem ser reprimidos.

Mesmo numa hipotética realidade em que não existisse escassez e todos os nossos desejos materiais pudessem ser satisfeitos, ainda haveria o impeditivo de que, em sendo os desejos livres – como queria o astrólogo – não há como impedir que os desejos de alguns entrem em conflito com os desejos de outros, o que implica que a satisfação de todos numa realidade sem repressão é impossível.

Assim, o único modo de as pessoas se ajudarem mutuamente a serem felizes (lembrem-se, quem fala assim é o Quiroga, não eu) é buscando o equilíbrio entre os próprios desejos e os dos semelhantes, não pelas vias mágicas de utopias cósmicas que pregam o liberou geral, oba, oba, esquindô, esquindô.

Se isto é claro para o bugre aqui, não entendo porque não seria para Vênus e Urano, citados implicitamente como inspiradores das elucubrações comentadas.

Para quem tiver tempo e paciência para conferir, após o final deste texto segue a transcrição dos prólogos da coluna, referentes à semana seguinte à do citado na abertura. Pensei em comentar um por um dos meus sete dias de Quiroga, mas após me deparar com a sabedoria astral resumida no caput, deixo ao leitor a árdua missão de analisar e concluir por si só o que a astrologia, e a filosofia dela oriunda, tem a oferecer como oráculos supra-terrenos da humanidade.

Ou então o Quiroga é um gozador, que não leva a sério as bobagens que publica e morre de rir ao ver que tem gente que se dá ao trabalho de contestar de graça o que ele escreve em troca de uma grana preta.
Desejo, ciúme, liberdade e amor 

O Estado de São Paulo de domingo, 24 de Abril de 2005

No céu, Mercúrio e Júpiter estão em oposição e a Lua é cheia no signo de Escorpião.
Aqui na Terra, nossa humanidade arde interiormente por causa de seus desejos, confirmando nessa dimensão a sua absoluta liberdade, nela se pode tudo.
Todavia, o mesmo não ocorre na dimensão concreta, na qual não apenas as regras, morais e cívicas, limitam a realização dos desejos, como também, e essa é a pior parte, as pessoas se vigiam umas às outras para limitar a expressão criativa dos desejos.
Hoje em dia, por exemplo, considera-se o ciúme uma espécie de prova de amor, mas a realidade passa longe, bem longe disso, sendo seu contrário: o ciúme é o assassinato do amor, é a tentativa de limitar a expressão criativa de alguém, aprisionando essa pessoa numa ilusão de amor, e condenando-a a querer muito, mas ser castigada caso se atreva a realizar algo.
O dinheiro é um deus que empobrece 
O Estado de São Paulo de segunda-feira, 25 de Abril de 2005

No céu, Mercúrio e Júpiter estão em oposição e a Lua ainda é cheia no signo de Escorpião.
Aqui na Terra, o valor de nossa humanidade se mede por meio dos deuses e deusas que ela cultua, e disso é fácil entender o porquê de a cultura ter enveredado pela mediocridade, dado o deus irrefutável ao qual a imensa maioria rende culto ser o dinheiro. O dinheiro é um deus que empobrece nossa humanidade, pois quem o tem sofre a tentação de se achar em plena segurança e independência, porém, essa dita segurança é a prisão dos blindados e guarda-costas, e também, a suposta independência é absolutamente subordinada aos humores do mercado financeiro. O dinheiro não liberta nem torna ninguém independente, seu falso brilho ilude e raras são as pessoas que o têm e não enveredam pela preguiça, indolência e vício, pois o culto desse deus pede em troca o sacrifício da própria alma.
A mística dos governos
O Estado de São Paulo de terça-feira, 26 de Abril de 2005

No céu, Mercúrio e Júpiter estão em oposição, e a Lua começa a minguar no signo de Sagitário.
Aqui na Terra, nossa humanidade tanto quis, e tanto fez para libertar-se das superstições que a fustigavam, que, ao desconsiderar o culto aos deuses ser parte integrante de sua natureza, acabou enveredando na mística do materialismo. Por isso, pensando ter se livrado de Deus, apenas entronou em seu lugar um ídolo, que se chama dinheiro, criando seu próprio reino aqui na Terra, pela invenção dos Estados que governam os diversos países. É admirável que nossa humanidade hipócrita se horrorize quando a religião se intromete nas leis seculares, pois qualquer Estado é influenciado por uma mística, que é o negócio, onde a religião do lucro se sobrepõe ao espírito original do Estado, que é existir em função do bem e segurança da maior quantidade possível de pessoas.
A mística do dinheiro
O Estado de São Paulo de quarta-feira, 27 de Abril de 2005

No céu, Mercúrio e Júpiter estão em oposição e a Lua continua minguando no signo de Sagitário.
Aqui na Terra, a mística do dinheiro e dos negócios continua empobrecendo nossa humanidade, pois a ilusão de segurança, independência e autodeterminação que esses provocam é tão grande, que as pessoas abandonam suas vocações e abdicam seus talentos para, antes de mais nada, garantir dinheiro, e só depois de tê-lo se dedicariam a criar. Todavia, o dinheiro nunca é suficiente, se uma pessoa viaja de avião na primeira classe, com certeza ela já pensa em ter seu próprio jatinho. Nunca o dinheiro é suficiente e, por isso, nunca chega, tampouco, o tempo de as pessoas serem quem elas seriam senão tivessem abdicado suas vocações e talentos para garantir dinheiro. Para que o dinheiro não empobreça, a pessoa que o usa deve ser rica em talentos e em presença de espírito.
Aqui, o dinheiro é deus 
O Estado de São Paulo de quinta-feira, 28 de Abril de 2005

No céu, Vênus e Netuno estão em quadratura e a Lua míngua no signo de Capricórnio.
Aqui na Terra, nossa humanidade pensou ter se livrado dos deuses e deusas quando determinou que os Estados regentes de países democráticos deveriam ser independentes de quaisquer Igrejas, mas como o impulso místico é parte integrante da natureza humana, esse foi transferido, mascaradamente, para o ídolo "dinheiro". Nenhum governo é verdadeiramente secular, dado prestar culto cotidianamente ao deus dinheiro no templo dos negócios. Qualquer governo, cujas diversas instâncias hierárquicas se ocupem em fazer negócios, é tão ou mais perigoso quanto o infame Talebã, talvez ainda mais vil, pois mascarado com falsa dignidade. Aqui, o dinheiro é Deus e, por isso, política e negócio é uma combinação tão perversa quanto a de Estado e religião.
O dinheiro não é deus 
O Estado de São Paulo de sexta-feira, 29 de Abril de 2005

No céu, Vênus e Netuno estão em quadratura, e a Lua continua minguando no signo de Capricórnio.
Aqui na Terra nossa humanidade paga o preço de ter se tornado devota de um deus falso, ao qual presta culto diariamente no altar da conta bancária. O impulso místico, que é parte integrante de sua própria natureza, foi desorientado, e hoje a cultura empobrece por causa de os governos se dedicarem a fazer negócios em vez de zelar pelo bem do povo e, também, porque as pessoas, pensando fazer o certo para libertar-se, se tornam escravas ao atrelar sua independência ao dinheiro. O espírito universal, o verdadeiro deus, que também é deusa e criança, precisa ser recuperado, o tempo certo de fazê-lo é agora, e a iniciativa é tomada por todas as almas de boa vontade, que almejam realizar um mundo mais justo e feliz para a maior quantidade possível de seres humanos.

Oscar Quiroga


Um prêmio aos que chegaram até aqui.
Quem acredita que evoluiu espiritualmente com apenas uma semana de Quiroga, tem a chance de se projetar ao nirvana astrológico comprando o livro dele.
A resenha diz tudo e promete o resto. 
Título: Livro - Astrologia Real, o que seu signo quer dizer a você
Autor: Oscar Quiroga
Editora: ROCCO
Assunto: ESOTERISMO-ASTROLOGIA
Edição: 1
Número de Páginas: 274


Poder, Amor, Inteligência. Esses são os três aspectos da consciência que Oscar Quiroga destaca em Astrologia real ? o que seu signo quer dizer a você: um novo ponto de vista para a compreensão da humanidade e de sua interação com o cosmos. A arte de interpretar os astros, segundo ele, é a harmonização das atividades e preocupações terrestres com esferas superiores do universo, é a expressão do luminoso, pleno e significativo intercurso de tudo, é a diferença entre a vida poder ser experimentada com sentido ou sem sentido algum.

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