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As religiões da Liberdade

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Por Acauan

Liberdade de religião é um assunto muito batido.
Por isto, hoje vou falar da religião da Liberdade, ou melhor, das religiões da Liberdade.
A Liberdade, no caso agora, não é aquele atributo associado à autodeterminação do indivíduo, que tanto apreciamos e sem o qual não seríamos quem somos.
Falo do bairro da Liberdade, o charmoso enclave oriental no centro de São Paulo, nossa Chinatown, onde podemos caminhar entre um monte de lojas que vendem quinquilharias chinesas e descobrir nas entrelinhas desta vulgaridade o antigo espírito da cidade, onde muitas nações convivem e formam uma única.

Mas o assunto aqui não é a colônia oriental, japonesa (a maioria), chinesa e coreana que ocupa o espaço entre a Praça da Sé e o começo do Cambuci (quem não é de São Paulo nem queira saber onde é isto).
Para o observador da religião aqueles quarteirões em torno do antigo Largo da Forca, hoje Largo da Liberdade, são um tesouro antropológico.

Meus filhos gostam de andar por lá, por isto, vez por outra circulo por aquelas bandas para ver vitrines que exibem katanas fabricadas em linhas de montagem e outros souvenires tão autênticos quanto uma nota de três dólares.

Mas o legal mesmo é topar com as versões nipônicas daqueles estereótipos de pregadores religiosos com os quais cruzamos (ou evitamos) no nosso dia a dia.
Eles estão todos lá, mas pitorescamente recriados no clima do bairro. Orientalizados, digamos assim.

Comecemos pelas Testemunhas de Jeová.
A lembrança primeva que tenho desta seita é a de seus pregadores de campo, batendo de porta em porta para avisar que o mundo ia acabar qualquer dia destes, entre amanhã e o dia em que morresse o último sei-lá-quem que tava vivo em 1914 (não olhem para mim, perguntem para eles o que significa isto).
O notável é que desde então passei a acreditar que aqueles pentelhos de maletinha e revistinha na mão tinham algum poder mágico, pois quando eles apareciam na esquina, faziam desaparecer todo mundo que tava na calçada, lavando seus carros na manhã de domingo (quem não é de São Paulo não queira entender isto também).

Bem, resumindo, Testemunhas de Jeová são inconvenientes e orgulhosas disto.
Exceto as da Liberdade.
Os nipônicos e descendentes cooptados pela seita (também não me perguntem por que japoneses ou nisseis se tornam TJ's) se limitam a oferecer suas duas publicações oficiais, A Sentinela e Despertai, simplesmente exibindo silenciosamente as revistas para os passantes na calçada.
Para os orientais, o ato de abordar diretamente alguém é demasiado agressivo, optando a turminha da Torre de Vigia com olhos puxados por um método mais sutil, condizente com os padrões locais.

Que façam escola. Ou que desistam. O que vier primeiro.

Mas minha melhor descoberta nestas andanças (se pudesse patenteava) é um pregador evangélico japonês (ou chinês, ou coreano, sei lá... mas acho que é japonês ou nissei), que fica no finalzinho da feirinha da Liberdade, com um cartaz enorme escrito em vária línguas e caracteres (incluindo japonês, chinês, coreano, hebraico e árabe, ou coisa parecida, já que só posso julgar pelo formato dos desenhinhos), que com um ridículo chapéu onde se lê "Jesus Salva" passa o tempo sentado num banquinho cantando hinos evangélicos em japonês (acho...).
Do que li no cartaz, nas partes em português, espanhol e inglês, é só aquela balela de sempre que, resumindo, diz "creia em Jesus ou queime no inferno por toda a eternidade".
Fico imaginando se alguma vez na História da Humanidade tal estratégia de conversão funcionou com alguém.
Comigo não deu certo.

Mas já que estamos nas cercanias da feirinha da Liberdade e, portanto, do Largo que, como disse, hoje leva o nome do bairro, mas ficou famoso pelo laço que estrangulava os tidos como malfeitores em tempos de outrora, impossível deixar de falar da Capela da Santa Cruz dos Enforcados, também conhecida na cidade como Igreja das Almas.

Oficialmente é uma igreja católica romana.
Para mim é um mistura de castelo do Conde Drácula com Terreiro de Umbanda onde se rezam missas nas horas vagas.
Não fica bem para um guerreiro Tupi dizer isto, mas se tem um lugar que me metia medo era aquele troço, com certeza o lugar mais sinistro de São Paulo (cemitérios inclusos).
De dia a visitei várias vezes, motivado por meu irresistível instinto de observador. Depois da meia noite eu preferia não passar nem perto.
E olhem que hoje ela tá reformada e até simpatiquinha, pintada em tons pastéis.
Por décadas a capela foi um prédio cinzento, muito parecido com a mansão da família Adams, cujas lendas urbanas falavam das almas dos enforcados que faziam ponto no local, principalmente as dos inocentes que foram condenados em processos injustos.
Estas crenças folclóricas transformaram o velário anexo em um centro de peregrinação sincrética, onde umbandistas, Candomblecistas, espíritas kardecistas que jamais admitiriam isto e católicos romanos que acham que mal não faz, vão lá acender velas para pedir às almas enforcadas saúde, emprego ou que a amante do marido engorde trinta quilos.
Para terem uma idéia do ambiente de sincretismo que ronda a vizinhança da Igreja, da última vez que passei por lá uma vendedora ambulante vestida de baiana me ofereceu um saquinho de pipocas. Quem conhece o bê-a-bá da Umbanda sabe o que significa isto.

E tem os Seicho-No-Iê.
Nunca soube bem qual era a base filosófica desta seita.
O engraçado é que os membros dela sabem menos que eu.
Na Liberdade eles são o único grupo religioso de origem oriental que dão as caras na calçada, possivelmente porque budistas e xintoístas não se prestam a este papel ridículo.

Convivi com muitos Seicho-No-Ie.
Uma das coisas que sinceramente me incomodavam é o fato que viviam rindo, mesmo que nenhuma piada tivesse sido contada.
Um dia inquiri um dos adeptos sobre o porquê de tanta iniciativa hilária automotivada e tive por resposta que, para ele, a vida era uma comédia...
Acho que nunca vou me converter a religião nenhuma, mas se tivesse que fazer uma lista daquelas às quais não quero pertencer, os Seicho-No-Iê estariam no topo. A idéia de parecer um completo idiota aos meus próprios olhos não é exatamente meu ideal de vida. Sem querer ser ofensivo com os Seicho, que são gente boa, é coisa minha...

Ah é...,
Tem os sete deuses da felicidade.
Daikokuten (Deus do paraíso), Ebisu (Deus da prosperidade nos negócios), Benzaiten (A Deusa da arte e da música), Bishamonten (Deus da guerra), Jurojin (Deus da longevidade), Hoteiosho (Deus da previsão), Fukurokuju (Deus da sorte).
São sete figurinhas simpáticas, parecidas com duendes, mas que têm algo a ver com as tradições xintoístas e taoístas.
As representações destes sete deuses na forma de estatuetas e gravuras eram tão freqüentes nas vitrines das lojas (em meio à toda aquela éca Made In China ou Made in PRC, como querem os envergonhados), que chamaram minha atenção.
Meu favorito é o Fukurokuju, um carequinha muito parecido com o Cabeça de Ovo, o vilão interpretado pelo Vicent Price na antiga série bufa do Batman dos anos sessenta.


A Liberdade é legal, suas luminárias e portais mereciam uma mão de tinta, mas continua um local único. O bairro tem um lugar saudoso em minhas memórias de épocas passadas quando freqüentava as livrarias de lá que, sei lá por que, sempre tinham uma peixaria nos fundos. Tempos em que, em boa companhia, brincava de contar japonês na Liberdade. Ganhava quem contasse mais.

Coisas de São Paulo.
Onde muitas nações convivem e formam uma única.
E grande.

Dedicado em homenagem ao 452º aniversário da cidade de São Paulo.

Publicado originalmente em 22 de Janeiro de 2006, às 18:35

Premissas do Fundamentalismo Bíblico

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Por Acauan

As agremiações religiosas que adotam o fundamentalismo bíblico costumam defender as seguintes premissas:

1. Toda a Bíblia foi inspirada por Deus
2. A Bíblia é isenta de erros em tudo que afirma;
3. A Bíblia contém toda informação necessária para a vida do crente;
4. Os crentes devem ter a Bíblia como sua única regra de fé e prática;
5. A Bíblia deve ser interpretada literalmente, sempre que possível.

Uma primeira contradição vem do conflito entre a quinta e a terceira premissa.
A Bíblia não descreve um método pelo qual possa ser interpretada.
Admitido a interpretação como necessária, dado que mesmo os fundamentalistas reconhecem que não é possível entender literalmente determinadas passagens, então temos uma informação necessária à vida do crente que não consta da Bíblia.

Outro conflito se dá entre a primeira premissa, de que toda a Bíblia foi inspirada por Deus, com a terceira, uma vez que não constam da Bíblia uma relação de quais seriam os livros inspirados ou um método para diferenciar um livro divinamente inspirado de outro que não o é.
O Cânone bíblico foi definido segundo metodologias humanas, não divinamente inspiradas e, portanto, passíveis de erro.
Assim, não apenas falta à Bíblia informação que defina a si própria, contradizendo a premissa terceira, da suficiência, como não se pode aferir a inspiração divina de livros selecionados e interpretados por metodologias humanas falíveis.

No caso da quarta premissa temos uma autocontradição, uma vez que se os crentes devem ter a Bíblia como sua única regra de fé e prática, esta regra deveria constar da Bíblia e não consta.
Um versículo frequentemente citado por fundamentalistas como se fosse a tal regra é II Timóteo 3: 16:
Toda a Escritura é divinamente inspirada, e proveitosa para ensinar, para redargüir, para corrigir, para instruir em justiça;

Fica claro que tal citação não atende ao objetivo pretendido, dada a óbvia diferença entre declarar determinado texto inspirado como proveitoso e dizer que o mesmo texto deve ser única regra de fé e prática.

A quarta premissa também gera uma contradição teológica, uma vez que o fundamento do cristianismo é a vida de Jesus de Nazaré, logo, tudo que diga respeito àquela vida fundamenta o cristianismo – necessariamente –, esteja relatado na Bíblia ou não. Na hierarquia teológica cristã é a vida do Cristo que dá autoridade aos Evangelhos e não o contrário.
Em qualquer situação, a história de vida do biografado define a biografia e não o inverso.

Por fim, a segunda premissa, que declara a inerrância bíblica, confronta a terceira e quarta, dado que em nenhum trecho a Bíblia se declara isenta de erros em tudo que afirma.

É comum fundamentalistas defenderem que inspirado implica em inerrante, mas esta é uma interpretação e não uma citação bíblica.

Publicado orignalmente em 14 Abr 2009, 14:10

Paraíso, Inferno & Sabonetes

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Por Acauan

Se você fosse um pregador extremamente interessado em conquistar seguidores para uma nova religião, por qual destas duas abordagens você optaria:

1ª Proclamar que Deus olha apenas o coração e os atos de cada um, independente de seus rituais ou crenças; ou

2ª Anunciar que só existe uma verdadeira Fé (a que você prega, claro) e os que a abraçarem desfrutarão de infinitas recompensas, enquanto os que a negarem sofrerão indescritíveis tormentos.

Uma nova crença colocada no mercado, cujo sucesso depende de um apelo suficientemente forte para conquistar fiéis de religiões já estabelecidas, jamais lograria sucesso usando como estratégia de marketing a primeira mensagem.
O resultado óbvio deste tipo de pregação seria transmitir no público a conclusão de que “se tanto faz, fico onde estou”. A famosa lei da inércia aplicada aos consumidores.

Seria algo como lançar um novo sabonete em uma campanha publicitária tendo por slogan “lava igual aos outros e custa o mesmo preço”. Ninguém vai querer nem experimentar.

A propaganda e marketing religiosos valem-se de lógica muito semelhante, só que levada a extremos aos quais os profissionais da área jamais sonhariam, como ameaçar com um destino horrível aqueles que tomarem banho com o sabonete da concorrência.

O fato é que funciona. Cristianismo e Islamismo estão aí para provar.

A próxima vez que te oferecerem o Céu, lembre-se do sabão que lavava mais branco. E pense duas vezes.

ACAUAN DOS TUPIS

Publicado originalmente em 19/5/2003 13:28:20

Íncubus e Súcubus

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por Acauan Guajajara

Os roteiristas responsáveis pelos exorcismos televisionados da Organização Universal deveriam ler um pouco mais de mitologia da Idade Média para enriquecer os diálogos entre pastores e demônios.
Demônio da Universal só sai dos quintos para atrapalhar vida financeira do crente que atrasou o dízimo ou para botar uma amante gostosona no caminho do marido da fiel inadimplente com a Fogueira Santa.

Não sei como Astaroth, Leviatã ou Asmodeu ainda não moveram um processo contra a Rede Record por calúnia, injúria e danos morais, reclamando que eles não têm absolutamente nada a ver com aqueles imbecis de cara eletronicamente escondida, que usam aquela voz do Pato Donald para repetir sempre as mesmas besteiras.

Mas não é destas primadonas infernais que eu quero falar, mas de dois interessantes grupos de coadjuvantes das hostes caídas: os Íncubus e Súcubus.

Íncubus e Súcubus são demônios especializados na sedução sexual, visitando o leito das vítimas durante a noite e transando com elas.
Os Íncubus são as entidades masculinas e os Súcubus as femininas.
Só digo que se os Súcubus são mesmo aquelas gostosonas nuas que aparecem nas representações artísticas, quem é atacado por eles de vítima não tem nada.

Mas são personagens legais, um resumo de como a mitologia de uma sociedade pode absorver e traduzir os efeitos da repressão sexual.

Íncubus e Súcubus tinham uma predileção por quem não deveria ter predileção por eles, como monges, freiras e mulheres solteiras e solitárias, que segundo os relatos eram vítimas tão freqüentes destas criaturas que já haviam desistido de trancar as janelas.

As incursões de Íncubus e Súcubus eram denunciadas pelas poluções noturnas nos homens e pelos sonhos eróticos nas mulheres. No caso destas, por vezes o incubus se empolgava e deixava a coitada em estado interessante, com uma barriga para explicar.
Nestes casos as mulheres tinham uma escolha nada confortável. Confessar que foi o namorado e ser renegada por todos como vadia, inclusive pelo namorado ou contar que foi estuprada por um Incubus e torcer para o idiota do pai acreditar e o desgraçado do padre não acusa-la de ser uma bruxa.

O mago Merlim, mentor do rei Artur, segundo a lenda, era fruto de uma destas uniões de uma mulher humana com um Incubus.

Com o homem, sem neuras. De certa forma o Súcubus era a mulher ideal. Bonita, gostosa, aceitava uma noite de amor sem compromisso e não ficava esperando você ligar no dia seguinte. Mesmo porque o telefone ainda não tinha sido inventado.
Além disto, o Súcubus não engravidava, não tinha TPM e não te levava para conhecer a família dele.

Imaginem um pobre camponês medieval chegando em casa depois da farra, de madrugada, bêbado, cheirando a perfume barato (que devia ser forte pra caramba, já que a turma da época não tomava banho) e dando de cara com a mulher, já pronta para meter o cinto de castidade nas partes baixas dele. O pobre camponês faz uma cara de assustado e diz: - Mulher, você não sabe o que aconteceu, fui atacado por um Súcubus.
Deve ter funcionado pelo menos uma vez, pois alguém acreditou e passou esta história para frente.

Íncubus e Súcubus aparentemente estão mais ligados às antigas mitologias druídicas celtas do que ao cristianismo, tendo sido promovidos a condição de demônios por um destes sincretismos que a igreja não reconhece, mas também não nega.
A distância dos Íncubus e Súcubus dos papéis usuais atribuídos aos demônios na mitologia cristã fica clara no fato de o objetivo destes seres não ser levar os homens e mulheres à perdição através do pecado da luxúria, mas drenar deles suas energias vitais através do ato sexual. Algo mais próximo do vampirismo do que da religiosidade clássica.

Como criaturas sobrenaturais detestam céticos e nunca se manifestam para eles, é muito improvável que um Súcubus com a cara da Gisele Bundchen e o corpo da Juliana Paes apareça na minha cama à noite, nua, ávida por sexo selvagem e sem compromisso.

Vou me converter.

Publicado originalmente em 21/5/2004 17:09:26

Sobre as Provas Metafísicas da Existência de Deus

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Por Acauan

É recorrente em debates entre religiosos e ateus a citação por parte dos religiosos das chamadas provas metafísicas da existência de Deus, geralmente As Cinco Vias propostas por Sto. Tomás de Aquino, citação frequentemente acompanhada de um desafio à refutação ou alguma referência insultuosa à inteligência do interlocutor ateu por ousar não crer no que estaria tão definitivamente provado.

Também é recorrente em debates minimamente informados sobre a História das Idéias que o ateu cite as contestações à metafísica de Kant e Husserl, nominalmente ou não, recebendo as réplicas esperadas que por sua vez também podem ser postas em dúvida. Em seu status quaestionis o debate é inconclusivo e terminam as partes acreditando naquilo que optaram por acreditar.

Já nos debates de Internet, geralmente orientados pelo que responde a primeira página do Google sobre o tema em discussão, se nota que as citações disponíveis sobre as provas metafísicas são postas e rebatidas sem deixar claro se a lógica do debate é compreendida em seus princípios básicos.

O primeiro ponto que raramente vejo discutido nestes debates é o significado e abrangência do conceito de prova.
Provar uma afirmação é apresentar evidências e argumentos que demonstrem sua veracidade, com um grau de certeza suficiente para desacreditar os argumentos e evidências que propõem que a afirmação seja falsa.

Como uma prova é constituída de evidências e argumentos, a abrangência da prova é limitada à abrangência dos argumentos e evidências que a constituem.
Quanto mais abrangente é o que se intenciona provar, mais abrangentes devem ser as evidências e argumentos usados como prova, ou seja, a prova vale até onde sabemos válidos seus argumentos e evidências.

Assim, as únicas provas absolutas conhecidas são as matemáticas, uma realidade abstrata na qual a abrangência da prova contém o que se pretende provar sem incertezas ou possibilidades alternativas.

A metafísica por sua vez estuda a realidade concreta que percebemos visando uma compreensão de sua estrutura e funcionamento que nos permita tirar conclusões sobre aspectos desta realidade situados além de nossa percepção.

Obviamente, qualquer prova metafísica só é válida dentro da abrangência da metafísica, ou seja, até onde admitimos as premissas da metafísica como verdadeiras, sendo suas premissas essenciais tomadas da hipótese de que a realidade concreta é necessariamente coerente, isenta de absurdos e apreensível pela razão humana.

Na metafísica parte-se de um conhecimento e experiência finitos, tomando-se por verdadeiro que tal finito represente uma amostra significativa do total absoluto da realidade e, baseado em tal confiança, tira-se conclusões de abrangência infinita, como as provas da existência de Deus. Ou seja, a metafísica, tira conclusões sobre o todo a partir do que sabe sobre a parte.

Na matemática é perfeitamente correto tirar conclusões sobre o infinito a partir do finito. Não importa que a circunferência tenha infinitos pontos, bastam três pontos para definir exatamente todos os demais infinitos pontos constituintes.

A metafísica faz sentido para explicar uma realidade criada e mantida por uma racionalidade divina, o que torna esta realidade específica uma premissa metafísica e implica que conclusões metafísicas sobre a veracidade da ordem racional divina da realidade caem em petição de princípio.

É importante lembrar que nas Cinco Vias Sto. Tomás de Aquino não conclui diretamente pela existência de Deus e sim que a realidade observada necessita de certos elementos para sustentar sua coerência racional e associa estes elementos "ao que chamamos Deus", nas palavras do filósofo.

Pode-se dizer que as Cinco Vias não provam a existência de Deus e sim que apresentam a "hipótese Deus" como explicação racionalmente sustentável para a coerência do cosmo.

A "hipótese Deus" como apresentada pela metafísica não se configura como prova de existência por não eliminar outras hipóteses e por só ser válida dentro das premissas estritas de que a coerência cósmica tida como verdadeira pela metafísica seja um fato e não uma interpretação do observador humano.
Também não se sustenta como demonstração de veracidade da afirmação "Deus existe" e sim como solução teórica para o problema da racionalização da existência de Deus, pois demonstrar em tese que a existência de um suposto ser explicaria determinados fatos não implica que este ser de fato exista.

Esta questão não passou despercebida a Sto. Tomás de Aquino, que declarou explicitamente a superioridade do ontológico sobre o lógico ao criticar o argumento de Sto. Anselmo, que propunha provar a existência de Deus com um argumento que, em última instância, se revela apenas um jogo de palavras.

Provar entidades infinitas só é possível em uma realidade matemática ou similar à matemática, na qual as propriedades de uma fração finita são idênticas às propriedades do todo infinito.
Em qualquer outra realidade em que esta lei não seja válida, qualquer fração finita é insignificante diante do todo infinito e, portanto, nenhuma prova cujas evidências e argumentos estejam contidos nesta fração terão abrangência suficiente para demonstrar a veracidade do todo infinito que pretendem provar.

No mais, a razão mais elementar entende que o autoevidente dispensa prova.

Com o justo reconhecimento à sabedoria de Sto. Tomás de Aquino, todo o mais para além do autoevidente só encontra provas absolutas na Fé pessoal.

Publicado originalmente em 26 Mar 2011, 12:47

Ioannes Paulus PP. II, a morte do século XX

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Karol Joseph Wojtyla morreu às 16h37min (horário de Brasília) do dia 02 de Abril de 2005.

Sai de cena o último dos quatro construtores do final do século XX que ainda estava no poder.

De certa forma o século XX morre com ele, estendendo-se além dos limites da cronologia por obra de um pontificado que decidiu passar para História antes de terminar.

Em 1979 Margaret Thatcher foi eleita Primeiro Ministro da Grã-Bretanha.
Em 1980 Ronald Reagan foi eleito presidente dos Estados Unidos da América.
Em 1985 Mikhail Gorbachev chega ao poder na União das Repúblicas Socialistas Soviéticas.

Mas foi Karol Wojtyla, em 1978, o primeiro a se assentar em um dos quatro postos que colocaram em movimento as engrenagens históricas da surpreendente seqüência de eventos que produziria o mundo do início do vigésimo primeiro século.

Foi o primeiro a se assentar e o último a sair, vivendo no intervalo o que os chineses chamam de tempos interessantes.

Quando a chama olímpica entrava no Estádio Lênin para a cerimônia de abertura dos jogos de Moscou, em 1980, a atenção do mundo se dividia entre a simpatia do ursinho Micha, mascote dos jogos e o recrudescimento da guerra fria, motivado pela invasão soviética ao Afeganistão, por conta da qual o governo americano ordenou o boicote de seus atletas às competições.

Embora as contradições do império soviético já fossem conhecidas na época a ponto de não serem poucos os que tinham certeza de que o gigante cairia, pouquíssimos foram os que previram quando e como se daria tal queda, uma vez que a época e o cenário permitiam as mais pessimistas especulações.

Nove anos após a Olimpíada que mostraria ao mundo as vitórias do socialismo, o muro de Berlim desabava, uma das pedras da seqüência de dominós que destruiria a cortina de ferro e a própria União Soviética, dois anos depois.

Mas Berlim não foi o primeiro dominó da cadeia.
Esta honra coube a Gdansk, a antiga Dantzig, cidade polonesa industrial do báltico, muito citada nas histórias das guerras mundiais.
Foi lá, no mesmo ano dos Jogos Olímpicos de Moscou, que surgiu o Sindicato Solidariedade, liderado por Lech Walesa, que, comandando as greves dos operários dos estaleiros, desafiou a repressão comunista local e o risco da invasão da Polônia pelas forças do Pacto de Varsóvia, ironicamente chamado pelo nome de sua própria capital.

A confiança de Walesa se apoiava em sua fé incondicional em dois personagens: A Virgem Negra de Czestochowa e Karol Wojtyla.

O Papa que ingressou na Igreja Católica Romana em uma Polônia sob a mão de ferro de um regime totalitário e anti-religioso personificou a Fé que define a identidade nacional dos poloneses, os diferenciando dos demais eslavos, na maioria ortodoxos, e usou com decisão a força desta simbiose entre religião e nacionalismo contra a ditadura polonesa.

Venceu.

Anos depois, João Paulo II enxergou na Glasnost de Gorbachev a grande chance de libertar seu país e golpear fundo o comunismo que execrava. Para isto aliou-se a Reagan e Thatcher numa forte e decidida coalizão que o cambaleante império comunista não conseguiu enfrentar.

Cumpria-se a missão de vida de um homem que na juventude viu seu país ser massacrado pela tirânica ocupação nazista e assistiu a partida dos alemães coincidir com a chegada de um novo opressor, as divisões de Stalin.

Não é de admirar que um cardeal capaz de vencer neste ambiente hostil desenvolvesse as capacidades que o fariam o líder espiritual de mais de um bilhão de católicos, primeiro Papa não italiano em séculos.

Também não causa surpresa que alguém com tal biografia se tornasse um conservador convicto.
Suas posições radicais contra o aborto, os métodos contraceptivos artificiais e as pesquisas com células tronco embrionárias lhe valeram a oposição raivosa dos setores da sociedade que defendiam tudo isto.

A atitude do Papa quanto a esta oposição foi expressa claramente em sua visita aos Estados Unidos, país onde os liberais católicos prometiam colocar o pontífice contra a parede e exigir mudanças de rumo do Vaticano.
Calaram-se todos quando João Paulo II desafiou-os em público, dizendo que aqueles que não estivessem satisfeitos com as doutrinas de Roma eram livres para deixar a Igreja, já que a Santa Sé preferia ter bons católicos a ter muitos católicos.
O viajante polonês conquistava a América.

Nas quase três décadas de seu pontificado combateu o esquerdismo dentro da própria Igreja que comandava com a mesma energia com que o combateu fora.

Com João Paulo II a Teologia da Libertação perdeu força na cúpula romana, sobrevivendo no baixo clero e em segmentos do episcopado latino-americano, onde desarticulado e sem apoio nos altos círculos cardinalícios sofreu a irônica derrota de assistir o crescimento de um movimento apolítico e avesso às ideologias esquerdistas – a Renovação Carismática Católica.

Também por ironia, não é segredo que não agradava ao Papa tirar a Igreja do marxismo para ver tantos fiéis católicos bandearem para um neo-pentecostalismo que beira a heresia, mas Karol Wojtyla parece ter reconhecido os limites de sua obra e deixado para seu sucessor combater esta nova contaminação no seio da Igreja Romana.

Mas sua maior derrota foi ver sua Igreja arrastada pelos escândalos de pedofilia de clérigos, vergonhosamente acobertados por seus superiores.

Pessoalmente, destaco duas lembranças minhas de João Paulo II.

A primeira, foi ter minha baixa no serviço militar adiada por causa de uma das viagens do Papa ao Brasil, quando se cogitou a convocação de minha unidade para atuar nos serviços de apoio prestados pelas forças armadas para organizar e dar segurança às grandes concentrações que se formavam para ver o pontífice.
Dada a irrelevância de minha unidade, terminamos não sendo convocados para nada.

A segunda lembrança é a de encontra-lo celebrando uma missa campal na Piazza San Pietro, quando um Índio viajante, mais interessado em mostrar ao seu pequeno filho o magnífico acervo do Museu Vaticano do que em avistar celebridades, deparou-se inesperadamente com um Papa já velho e doente, que em nada lembrava a figura enérgica e vibrante que descia imponente das escadas dos aviões para beijar o solo dos países que visitava.

Mas então, quando a voz do Papa entoou em canto a benção final, num tom surpreendentemente firme e vigoroso, todas as demais vozes na grande praça se calaram e o silêncio de milhares testemunhou o carisma de Karol Wojtyla.

Alguns mitos e mentiras sobre Israel e os conflitos do Oriente Médio

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Por Acauan

1. Israel promove o genocídio dos palestinos.


Desde a criação do Estado de Israel, o governo que mais matou palestinos em ações militares diretas foi o da Jordânia, nação à qual os palestinos pertencem étnica, cultural e geograficamente.
A organização terrorista Setembro Negro foi nomeada assim para lembrar a data do massacre promovido pelo exército jordaniano.
Em segundo lugar vem o Líbano, que assim como a Jordânia promoveu ações - sem fazer distinção entre militantes armados e refugiados civis - para expulsar de seu território a OLP, Organização para Libertação da Palestina, de Yasser Arafat. Outras nações do Oriente Médio reagiram violentamente à presença de refugiados palestinos em seus territórios.
Israel mantém supremacia militar absoluta sobre os territórios árabes ocupados há mais de quarenta anos. Se reprimisse os palestinos com a mesma fúria com que o fizeram seus irmãos e vizinhos árabes, hoje o povo palestino não existiria mais.

2. Israel é um estado racista, que nega direitos aos que não são judeus

Cerca de 20% da população de Israel é composta de cidadãos árabes aos quais é garantida plena igualdade de direitos civis com os judeus. Estes cidadãos árabes israelenses têm direito a voto, possuem seus próprios partidos políticos de oposição ao governo e mantém representantes eleitos no parlamento.
A maioria dos países árabes impede seus cidadãos judeus de ter acesso a cargos no governo ou de instituir organizações políticas de qualquer espécie.

3. Israel move uma guerra covarde contra um povo fraco e indefeso 

Desde sua criação Israel vive em estado permanente de guerra não declarada contra uma coalizão de países árabes cuja somatória das populações, efetivos militares e recursos estratégicos superam os do Estado Judeu em proporção de dezenas contra um. Mesmo assim o Estado de Israel derrotou seus inimigos em campo de batalha por três vezes.

4. O sucesso militar de Israel é devido ao apoio dos Estados Unidos

Israel venceu a guerra de independência contra a coalizão de países árabes em 1948 mobilizando as forças e recursos dos movimentos insurgentes judeus que combateram os britânicos.
A Guerra dos Seis Dias foi vencida por um conjunto de estratégias que teve como protagonista o supersônico Mirage III, de fabricação francesa.
Na Guerra do Yom Kippur Israel contou com armamento avançado de fabricação americana, mas seus inimigos árabes eram fartamente supridos pela União Soviética em quantidades muito superiores.

5. O Estado de Israel é ilegítimo 

Todos os estados árabes do Oriente Médio tiveram suas fronteiras definidas por tratados arbitrados pelas potências vencedoras da Primeira Guerra Mundial que desmembraram o vencido Império Otomano.
A criação do Estado de Israel também foi arbitrada, porém com a chancela da Assembléia Geral das Nações Unidas.

6. Anti-sionismo é diferente de anti-semitismo, nem todo judeu é sionista 

O apoio da comunidade judaica internacional ao Estado de Israel é praticamente unânime.
As exceções numericamente desprezíveis são grupos ultra-ortodoxos como a Naturei Karta ou judeus étnicos ligados a alguma militância política de esquerda.
Ressalve-se que reconhecimento e apoio ao direito de existência do Estado de Israel como Lar Nacional Judeu não significa aprovação de qualquer coisa que o governo de Israel faça.

7. Judeus ortodoxos são "anti-sionistas".

Facções judaicas ultra-ortodoxas são frequentemente citadas pela militância anti-israelense e/ ou anti-semitas que as apresentam como prova de que anti-sionismo e anti-semitismo são coisas diferentes.

A grande maioria dos judeus ortodoxos é sionista – no sentido em que apoia a proposição da ONU que reconheceu o Estado de Israel como Lar Nacional Judeu.
Os partidos religiosos judeu ortodoxos integram a base de apoio do Likud, o Partido Conservador, no Knesset (Parlamento Israelense).
Algumas facções ultra-ortodoxas se opõem sim ao moderno Estado de Israel, não por serem anti-sionistas, como pregam árabes, muçulmanos, militância esquerdista e anti-semitas em geral.
Estes ultra-ortodoxos são contra o moderno Estado de Israel por serem sionistas demais e não de menos.
Estas facções são contra o Estado laico de Israel e defendem que somente o Messias, sob missão divina, pode reerguer Eretz Israel como nação soberana, não apenas sobre a Palestina, mas sobre todo o mundo.
Podem até não ser sionistas no sentido sócio-histórico convencionado, mas o fato é que eles querem um Israel muito maior que o sonhado por Theodor Herzl.

8. Israel é um estado terrorista 

O movimento sionista promoveu atentados terroristas contra militares britânicos e civis palestinos, se destacando o atentado ao Hotel King David e o massacre de Deir Yassin.
Estas ações se deram antes da criação do Estado de Israel.

O governo do Estado de Israel mais de uma vez forçou os limites aceitos pelas convenções internacionais, podendo ser acusado de violações ou mesmo de crimes de guerra nos termos da Convenção de Genebra sobre territórios ocupados.
Mesmo assim, classificar Israel como Estado terrorista é propaganda política que visa igualar moralmente o Estado judeu com seus agressores ou mesmo inverter os papéis.

Israel devolveu ao Egito a Península do Sinai, o maior e mais estratégico dos territórios ocupados sem maiores exigências que a preservação da paz pelos egípcios.
Cumprido este requisito mínimo, Israel nunca mais fez incursões agressivas contra o governo do Cairo.

Analisando o retrospecto, Israel manteve os acordos de paz que lavrou com organizações palestinas até o limite em que estas sistematicamente se valeram das posições conquistadas para promover mais ataques.

O quadro histórico evidencia que o Estado de Israel apresentou violações ao direito internacional enquanto existe e atua dentro dele, ao passo que seus inimigos ignoram completamente tal direito, caracterizando a chamada Guerra Assimétrica, que não isenta Israel da responsabilidade por violações, mas deixa claro quem é o lado terrorista neste conflito.

Postado originalmente em 01 Jun 2011, 14:41

Os Crentes e o Carnaval

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Carnaval tem os que adoram e os que detestam.
E tem os crentes.

Crente evangélico adora tanto detestar o carnaval que não vê a hora que chegue esta época do ano, só para expressar de modo ostensivo o seu descontentamento com o período carnavalesco pelo qual esperou o ano inteiro.

Não faz o menor sentido, eu sei, mas os crentes também não fazem.

Igreja evangélica durante e após o carnaval é uma festa só, algumas com fila para se dar testemunho de como lutou e venceu contra as tentações do demônio e suas investidas contra o povo de Deus, que abundam (em mais de um sentido) nesta época, ou para contar como evangelizou o travesti que ia sair de passista da escola de samba tal, minutos antes dele entrar na avenida, e o convenceu a aceitar Jesus, se arrepender e voltar a ser macho.

Crente é igual baiano. O carnaval deles começa uma semana antes e termina uma semana depois que o de todo mundo.
Quem vocês acham que são os primeiros a desfilar nos sambódromos? Se disserem que são as escolas deste ou daquele grupo erraram.
Antes que a comissão de frente da escola de samba que abre o carnaval ponha o pezinho fantasiado na passarela, com certeza um grupo de oração evangélico já percorreu todo o caminho para fazer a desinfecção espiritual do ambiente.
Depois dos desfiles vem outro grupo, talvez mais especializado, fazer o fechamento e amarrar um ou outro demônio da luxúria que esqueceu de voltar pros quintos depois da terça-feira.

E tem os retiros.

Como observador da religião já participei de muita coisa estranha (sempre a convite de alguém que apostou que não devia ser difícil catequizar mais um Índio), mas retiro espiritual de crente eu nunca fui – E nem quero, Deus me livre, Cruz Credo!!!
Um dos raros momentos em que penso em me converter é quando cogito a possibilidade do inferno ser um lugar cheio de crentes tocando violão.

Mas parece que nestes retiros inventaram o carnaval gospel, que pelo que eu entendi deve ser parecido com o carnaval do Brasil num universo paralelo de antimatéria.
Nestes retiros de carnaval evangélicos tem muita música gospel, muita atividade gospel, muito relacionamento gospel e muita diversão gospel ou seja, um pé-no-saco de chatice que não tem tamanho.

E deve ser cheio de crente tocando violão.

Só para constar, não que eu, particularmente, goste muito de carnaval. Por centenas de anos meu povo desfilou pelado pelo Brasil inteiro e isto nunca foi considerado festa.

Publicado originalmente em 20/2/2004 13:47:29
por Acauan

O Escultor Perfeito e o Padeiro que Queima os Pães

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por Acauan

Que diríamos de Michelangelo Buonarroti, se o seu magnífico David apresentasse entre seus perfeitamente delineados músculos de mármore um único que não fizesse parte da anatomia humana?

Ou de um padeiro cujo todos os pães por ele feitos fossem queimados?

Ninguém atribuirá perfeição como criador a alguém que produz sistematicamente obras defeituosas.

Culpar a criatura não é desculpa.

A mais perfeita das estátuas é, obviamente, inferior ao artista que a esculpiu. A pedra, mesmo em sua forma mais bela, continua sendo apenas pedra.

É natural e esperado que a criatura seja inferior ao ser criador. Um pão perfeito ainda não é lá grande coisa na hierarquia dos seres quando comparado ao padeiro, por mais imperfeito que ele seja, o que não impede que a criatura possua perfeição dentro do propósito para o qual foi criado.

Se esquecermos um pouco as chatices filosóficas sobre nossa incapacidade de aferir a perfeição, o Davi de Michelangelo pode ser um exemplo de peso (5,5 toneladas de mármore) de o quanto uma criatura perfeita testemunha a favor de quem a criou.

Uma criação tosca a ponto de levar seu próprio autor a frustrar-se dela e desejar destruí-la por completo, sugere um criador com mais pretensões do que talento.
Enquanto il Fiorentino, maravilhado diante de sua obra terminada, ordenava à rocha que falasse, um outro escultor que, após contemplar o trabalho concluído, preferisse destroça-lo com o malho a assina-lo com o cinzel confessar-se-ia mais habilidoso no uso daquela ferramenta do que no deste instrumento.

A interpretação do relato bíblico da criação, segundo o qual um Deus perfeito criou um Homem imperfeito pode ser derivada para, pelo menos, dois caminhos:

- O Homem é imperfeito em sua natureza, mas perfeito dentro do propósito da criação, como o Davi é uma representação não viva, portanto imperfeita, da figura humana, mas perfeita como obra de arte;

ou

- O Homem é imperfeito dentro do propósito da criação, o que remete a um criador imperfeito.

Não consigo enxergar outra possibilidade além destas duas.

Seria loucura subestimar o padeiro por seus pãezinhos não saberem cantar o Coro di Schiavi Ebrei, do Verdi, mas se encontramos carvão onde deveria existir casca crocante, é melhor procurar outra padaria.

Um argumento muito batido por religiosos é que o Davi de Michelangelo e os pãezinhos do Seo Manoel não tem livre arbítrio, o Homem sim, logo, não podemos culpar Deus pelas imperfeições advindas não da criação, mas das livres escolhas humanas.

Bem, eu estranharia muito um escultor que sucatasse metade de suas criações.

Que dizer de uma obra constituída de bilhões de seres dos quais nem um único utilizou seu livre arbítrio de modo satisfatório aos desígnios divinos?

O Jesus utilizou, dirão eles.
Ele não conta, é tido como Deus, ou filho de Deus, ou uma das pessoas de Deus, sei lá. Seja o que for está fora da regra. E mesmo que contasse, um acerto em bilhões de erros não melhora muito a estatística.

Se de todos os seres criados, nenhum, ou um só – e ainda com um tremendo pistolão por trás, fez uso satisfatório de seu livre arbítrio, só podemos concluir que ou o livre arbítrio por si só conduz ao mal, sendo portanto um defeito ou então os humanos possuem tendência atávica a fazerem mau uso do livre arbítrio.

Em ambos os casos fica configurada claramente a existência de defeito de fabricação.
Tudo isto considerado, se o Homem fosse um produto de consumo qualquer PROCON obrigaria Deus a reembolsar todos os compradores lesados e a recolher toda a criação para os devidos ajustes.

Um criador perfeito não cria seres defeituosos. Se fazia parte do propósito da criação que o livre arbítrio resultasse na opção voluntária e plena pelo BEM, temos que a obra de Deus é um grande fiasco e ele um padeiro queimador de pães.

Mas ainda tem a história da queda. De novo.
Os humanos seriam perfeitos, teriam caído e esta queda teria se refletido em toda a sua descendência e, em última instância, em todo o Universo.
Dá na mesma. O defeito de fabricação continua lá e o que é pior, espalhando-se como caruncho de pão em pão, fornada após fornada, enquanto o padeiro apenas olha os bichinhos tomarem conta da padaria.

Quando muito, dá umas marretadas no estoque quando fica nervoso ou manda um ajudante separar e salvar uma ou outra broa da qual gostou mais.

Para quem não acredita em Deus tanto faz como tanto fez. Tudo isto é apenas elucubração teórica.

Mas fico surpreso quando vejo cristãos de algumas vertentes se referirem a si próprios como “grandes vermes sujos e grosseiros” (isto entre eles, que são os eleitos, nem quero pensar em como se referem aos ateus).
É como se dissessem que Deus é um padeiro perfeito, mas seus pães são uma merda.

Vá entender...

Eu estou quase desistindo. 


Publicado originalmente em 9/9/2004 12:11:28

Balanço do Terror 

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Por Acauan


Um impasse freqüente e esperado nos debates entre religiosos e os que não o são ocorre sempre que uma das partes acusa a outra de ter sido responsável pelos grandes morticínios da História.

Nesta hora ateus militantes citam a Expansão Islâmica, Cruzadas, Inquisição, Reforma, Contra-Reforma, perseguições religiosas e o terrorismo fundamentalista, enquanto os defensores da religião têm sempre na ponta da língua a resposta aludindo aos massacres promovidos pelos regimes totalitários do século XX, designados como crias do ateísmo e do materialismo.

As réplicas de parte a parte giram sempre em torno da desculpa, melhor ou pior formulada conforme o talento retórico dos debatedores, de que o ideário que defendem nunca incluiu tal uso da violência, devendo os resultados macabros ser atribuídos a líderes corruptos que deturparam o sentido original da crença que ostentavam.

Ponto para quem diz que é difícil acusar um Buda ou um Jesus de Nazaré de mandar matar gente, mas nem o muçulmano mais devoto pensaria em dizer o mesmo sobre Mohamed.

É fato que a religião foi causa direta ou indireta de muitas mortes e sofrimentos ao longo da História.

Como os religiosos não podem negar este fato, recorrem ao argumento da deturpação e, tão frequentemente quanto, a um artifício comprometedor, defendendo que o total de mortes atribuíveis à religião ao longo dos últimos dois milênios é menor que o número de cadáveres produzidos pelas ideologias materialistas apenas no último século.

Há algo de terrivelmente imoral nesta argumentação.

Independente de quem de fato é responsável por mais mortes, não tenho dificuldade em concordar que alguém que matou milhões é pior que outro que matou milhares.
Só que, até onde me lembro do que é decência, a melhor conclusão é que ambos são ruins.

O que não entendendo em muitos religiosos é por que acham que a hipótese de suas igrejas ter causado menos mortes do que atribuem às ideologias a que se opõem lhes serve como escusa moral.
Como podem associar santidade a uma organização que promoveu morticínios, alegando apenas que outros fizeram coisa pior?

Além do que, uma pergunta que sempre me ocorre quando religiosos dizem que suas guerras mataram menos que as guerras dos outros é se tal resultado comparativo se deve à sua superioridade moral ou à sua inferioridade técnica.
Se as guerras religiosas do passado tivessem sido travadas com a mesma tecnologia de destruição disponível a Adolf Hitler é possível que não sobrasse ninguém para contar sua versão da História.

Não que técnica seja indispensável quando a vontade de matar é grande, Ruanda que o diga.

Nem todos os religiosos lançam mão deste argumento, assim, como dizia um antigo comunicador, queiram todos os demais aceitar os nossos respeitos*.
Como o Papa João Paulo II, que em 2004, se referindo à Inquisição pediu perdão pelos "erros cometidos a serviço da verdade por meio do uso de métodos que não têm relação com a palavra do Senhor".

Meio escorregadio, mas vindo da Santa Sé até passa.

A moda não pegou como deveria, restando nos segmentos mais conservadores do catolicismo romano quem torça o nariz para o pedido de perdão do Karol, destacando com veemência aspectos alegadamente progressistas da Inquisição que, apesar de matar e torturar milhares, teria elevado os critérios para se matar e torturar a níveis mais exigentes dos que havia antes.

O bugre aqui pode não ser nenhum especialista no assunto, mas por acaso isto não é o tal relativismo moral que os conservadores católicos tanto repudiam?
Se matar e torturar pessoas por professarem crença diferente da oficial é errado, então não há como defender a Inquisição.
Se defenderem, se aproximam perigosamente daquelas tais ideologias materialistas que acusam de matar mais gente que a ideologia deles.

Mas falando em ideologias materialistas, os dois lados que lançam mão do Balanço do Terror para acusar seu adversário tem um teto de vidro suficientemente grande para serem econômicos com as pedradas.

A reação típica do ateísmo militante quando lhes lançam a cara os milhões assassinados pelo nazismo e comunismo costuma ser um dar de ombros, acompanhado de um não tenho nada com isto, quando muito.

Ou coisa parecida.

Bem, se dezenas de milhões de pessoas morreram por causa de ideologias, vale a pena dar uma estudada nas tais antes de ter certeza que nenhum pedacinho delas contamina sua visão de mundo.

Quem já fez isto, religioso ou ateu, levante a mão.


*n.A. (nota do Acauan): Referência ao radialista Hélio Ribeiro, criador e locutor do programa "O Poder da Mensagem".

Publicado originalmente em 19/12/2006 às 21:49

Aquiles e Jesus - Parte II

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Por Acauan

Enquanto na narrativa mítica de Aquiles o mais poderoso dos homens está inevitavelmente destinado a ser vencido pela morte, na de Jesus de Nazaré a morte é vencida por um Deus que, em forma humana, renunciou a todo poder.

Aquiles encontra uma morte indesejada que lhe priva do triunfo final de sua maior luta, Tróia.
Jesus de Nazaré se submete voluntariamente aos seus inimigos para sofrer a morte em meio à tortura e humilhação.

A intersecção da queda do herói, da glória para o vazio, com a ascensão do homem-Deus, da imolação para a redenção, se dá no momento da morte, quando ambos se igualam em sua humanidade, o que lhes resta diante daquilo que os desprovê de tudo o mais.

Na iminência da morte, tanto o guerreiro indestrutível quanto o Cordeiro de Deus se sentem abandonados.
O primeiro por sua invulnerabilidade e o segundo pela presença divina.

É neste momento de semelhança entre as duas mortes míticas que se definem suas diferenças complementares.

Quando Jesus de Nazaré morre, rasga-se o véu do Templo, expressão usada em Mateus para simbolizar que o mistério inacessível foi revelado.

Tal mistério era a causa da frustração de Aquiles que, como mortal, não podia entender o Hades, que tentava interpretar a partir de sua própria realidade, uma realidade que já não lhe existia mais.

Só os deuses, de sua condição transcendente, eram capazes de compreender a mortalidade, mas como deuses eram incapazes de revelar um mistério que para eles não existia.

O véu do Templo se rasga quando a morte é penetrada por um ser que condensa em si a finitude humana e a transcendência divina.
Este feito não poderia ser realizado por um herói como Aquiles e nem mesmo por um semi-deus como Heracles.
O véu do templo só poderia ser rasgado por quem fosse ao mesmo tempo totalmente humano e totalmente divino, uma concepção inexistente no mito grego que é fundamental no mito cristão.

Só que o mito cristão não se encerra quando o véu do Templo é rasgado.
Ele se projeta para o futuro profético do segundo advento, quando Jesus retornará em glória e majestade.

Como um herói triunfante.

Como Aquiles.

Enviada: 12/11/2006 às 14:21

Aquiles e Jesus - Parte I

Aquiles e Jesus - Parte I

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Por Acauan

Todas as civilizações e culturas se ergueram sobre um conjunto de mitos fundadores que estabeleceram as percepções simbólicas da realidade, a partir das quais grupamentos de comunidades humanas desenvolveram identidade, valores e objetivos comuns.

Os significados míticos associados à morte, extraídos daquelas percepções, buscavam um sentido para a finitude humana que, paradoxalmente, só era encontrado na negação desta finitude.

Neste contexto, as duas narrativas míticas que lançaram as raízes da civilização ocidental, a Ilíada de Homero e a Bíblia judaico-cristã, apresentam visões opostas e complementares sobre os significados da morte e, por extensão, sobre os significados da vida humana, a partir da morte de dois de seus respectivos protagonistas, Aquiles e Jesus de Nazaré.

Aquiles foi o herói fundamental.
O guerreiro indestrutível, de imaculado valor pessoal, inspiração e modelo para todo um povo aos olhos do qual parecia predestinado ao eterno triunfo.

Com tudo isto, o filho de Peleu era mortal, atributo que definia sua verdadeira, e derradeira, predestinação.
Aquiles tombou pelo arco de Paris, pela fúria de Apolo e por sua única fraqueza, o calcanhar não imerso nas águas do rio Estige.

A morte de Aquiles é puramente trágica.
É o fim dos triunfos.
O maior dos guerreiros se vê privado da morte gloriosa em combate ao ser abatido a distância pelo inimigo de tocaia.

O significado mítico da morte de Aquiles é resumido pelo próprio, que, evocado por Ulisses, lamenta sua estada no Hades.
Quando o rei de Ítaca declara ao companheiro que ele merece ser aclamado príncipe entre os que tombaram, Aquiles retruca que preferia ser escravo entre os vivos que nobre entre os mortos.

O sofrimento de Aquiles não provém de tormentos externos, como no inferno cristão, mas da interrupção brusca e irrevogável de tudo que fazia dele o que era.
Aquiles, na morte, contempla para sempre seu próprio esvaziamento como ser, enfrentando a dualidade dramática de ser testemunha de seu próprio inexistir, uma morte sem o alívio anestésico da inconsciência.

Sua morte traduz a certeza trágica de que todas as vitórias humanas apenas anunciam a derrota final, que anulará todo triunfo que a precedeu.

Só que esta certeza não é absoluta.
Coube a Ulisses confrontá-la. Primeiro ao restaurar o ânimo de Aquiles relatando os grandes feitos de seu filho Neoptólemo e, em outro momento da narrativa, ao recusar a oferta de imortalidade e juventude eterna feita pela ninfa Calipso, em troca da permanência dele junto a ela.
Ulisses escolhe voltar para seu reino, para sua casa e para sua esposa.

Se o vazio dos mortos pode ser preenchido pelas notícias do sucesso de um filho e se o que preenche nossas vidas finitas – amor, família, lar - vale mais para nós que uma existência imortal, a certeza trágica traduzida na morte de Aquiles não é tão certa assim.

É no hiato desta dúvida que as mortes de Aquiles e de Jesus de Nazaré se aproximam.

Publicado originalmente em 11 de julho de 2006, às 23:12

Aquiles e Jesus - Parte II