O Almirante Negro e o Japa* Top Gun

editado August 14 em Religião é veneno
A Guerra do Vietnã foi bem mais complexa do que o Rambo dá a entender. Embora tenha começado em 1955, os EUA só começaram a se intrometer oficialmente em 1959, o conflito terminou teoricamente para os americanos em 1973, mas a guerra continuou entre o Vietnã do Norte e o do Sul até 1975.

Depois da assinatura do acordo de paz em 1973, os americanos removeram todas as tropas e cessaram os ataques aéreos, deixando para trás centenas de milhares de toneladas de armas e veículos, que foram usados pelo Vietnã do Sul, até que começaram a ficar sem dinheiro pra comprar combustível.

O Vietnã do Norte, bancado pelos russos começou uma ofensiva que em 1975 estava no limite da vitória, e a situação para o Sul era desesperadora. Toda a população cairia nas garras dos comunistas, e qualquer um ligado a governo, polícia, militares ou com a mais remota suspeita de ter colaborado com os americanos, iria pro paredão.

Uma ponte-aérea foi montada para remover refugiados. Aviões decolavam continuamente do Vietnã, mas não davam conta. Quando do último vôo, em 29 de março de 1975, milhares de pessoas se aglomeravam no aeroporto em Da Nang.

Um 727 da World Airways pousou, sem permissão. Era uma viagem para resgatar mulheres e crianças, mas quando a escada traseira do avião foi baixada, a maior parte dos que forçaram entrada eram soldados do Vietnã do Sul, que estavam ali com suas famílias, que acabaram ficando para trás.

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Comentários

  • editado August 14
    Eles eram controlados aos socos, cinco ou seus empilhados em cada fileira de assentos. Cercado por gente tentando entrar no avião, o piloto continuava taxiando desviando de pessoas e veículos. Um Boeing 727-100 carregada em média 106 passageiros. O da World Airways parou de colocar gente pra dentro quando a contagem já estava em 280 pessoas.

    Nessa hora a pista principal estava inutilizada, repleta de veículos e pessoas. O piloto viu uma chance e rumou para a pista de manobra, a muito custo decolando, perseguido por carros e motos, enquanto centenas de soldados armados inconformados por terem sido deixados para trás atiravam no avião.

    Sobrecarregado, o 727 não conseguia voar muito alto. O trem de pouso não subia, havia gente pendurada nos porões das rodas. A porta traseira, aberta. Havia emperrado com o excesso de gente subindo ao mesmo tempo. Asas e flaps danificados pelos tiros, linhas hidráulicas e de combustível furadas pelos projéteis.

    Um outro avião da mesma empresa emparelhou com eles e reportou algo mais assustador ainda: As portas de carga estavam abertas; havia gente aglomerada ali. Pelo menos 60 pessoas atulhadas no porão.

    O vôo até as Saigon, ainda havia relativa segurança normalmente levava 50 minutos, mas com todos os problemas, parte da asa danificada por uma granada e o vôo em baixa altitude eles chegaram uma hora e meia depois, quase sem combustível.

    Os soldados foram presos por deserção, e dos mais de 300 passageiros, somente 5 eram mulheres ou crianças.

  • Um mês depois mesmo em Saigon a situação estava periclitante. Com as tropas inimigas se aproximando, a única esperança de 5000 americanos ainda no Vietnã, entre diplomatas, agentes da CIA, funcionários e operários em geral era a Operação Frequent Wind, que tirou o USS Midway do estaleiro e o mandou, junto com uma força naval de respeito para resgatar o máximo de gente possível.

    Metade do complemento de caças do Midway foi transferido para uma base nas Filipinas; helicópteros extras foram embarcados, e logo o porta-aviões se aproximava do país em frangalhos. Não que o Major Buang-Ly, da força aérea sul-vietnamita o reconhecesse. Ele nunca havia visto um porta-aviões, e nem sonhava em chegar perto de um.

    Sabendo que ele e sua família seriam mortos e torturados (não necessariamente nessa ordem) pelos comunistas, ele tomou uma atitude desesperada; vendo que na base aérea aonde ele e sua família estavam abrigados havia um O-1 Bird Dog dando mole, ele organizou uma fuga; encheram o avião com seus pertences, o major, a esposa e cinco filhos. Como colocaram 7 naquele ovo que é o Bird Dog, não sei.

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  • Ao contrário dos cilônios, o Major Buang-Ly não tinha um plano. Ele sabia que havia navios americanos na área, mas não sabia aonde, nem tinha equipamentos de navegação. Rádio? O aviãozinho até tinha um, mas o Major não tinha fones de ouvido.

    Finalmente, um golpe de sorte: O Major viu um grupo de helicópteros americanos rumando para o mar aberto. Sabendo que assim como gaivotas helicópteros não são burros, ele os seguiu, sabendo que iriam pousar em algum lugar.


    Eventualmente ele chegou ao USS Midway, centro da Operação Frequent Wind, que corria de vento em popa.

    Helicópteros pousavam com refugiados, tratores os rebocavam para liberar a área de pouso, as pessoas eram rapidamente recolhidas, triadas e levadas para receber tratamento médico se necessário. Nos navios menores mesmo sem poder pousar helicópteros pairavam para que os passageiros descessem.


    Refugiados chegando no Midway
    Logo o convés do Midway estava lotado, o que foi uma péssima notícia para o Major Buang-Ly.

    O pequeno Cessna já havia sido identificado, a ordem do alto-comando era que ele pousasse na água e fosse acudido por um helicóptero, mas tudo mudou quando o Major tentou por três vezes jogar um bilhete, que foi levado pelo vento. Na 4ª tentativa ele guardou o bilhete dentro de seu coldre, o jogou pela janela.

    A mensagem:
    “Vocês podem mover esses helicópteros para o outro lado? Eu posso pousar na pista, eu consigo voar por mais uma hora, nós temos tempos para mover. Por favor me ajudem. Major Buang Esposa e 5 crianças”

    Levada imediatamente para o Capitão Lawrence Chambers, a mensagem mudou tudo. Um piloto, tudo bem, com sorte ele conseguiria escapar. Uma família de sete, em um avião sem trem de pouso retrátil, com a mesma flutuabilidade de um pernil de bronze? Sem chances.

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  • Chambers começou a pensar na coragem daquele homem; colocar a família em um avião minúsculo, sobrecarregado, arriscando tudo voando para mar aberto. Ele mesmo não era estranho a grandes riscos.

    Lawrence Chambers nasceu em 1929, no auge do movimento Black Lives Doesn’t Matter, e enfrentou racismo institucionalizado fortemente presente na Marinha e principalmente na Academia Naval. Mesmo assim ele conseguiu se graduar, tornando-se em 1952 o segundo negro a se formar na Academia.

    Como a Guerra da Coréia ainda estava comendo solta e a do Vietnã já se formava no horizonte, a necessidade fez com que todo aviador naval fosse bem-vindo, independente da cor e Lawrence acabou voando no Vietnã de 1968 a 1971, e com isso foi subindo na hierarquia. Em 1972 ele se tornou capitão, e ganhou seu primeiro comando.

    Como ele era excelente no que fazia, em 1975 ganhou o comando do USS Midway. Pela primeira vez um negro comandava um porta-aviões. E agora um negro iria desobedecer a seu Almirante.

    Lawrence ordenou que o Midway se virasse em direção ao vento. Também pediu voluntários para abrir espaço no convés, jogando ao mar os helicópteros que fossem necessários.

    Achando que iria ganhar uma Corte Marcial, ele fez questão de não ver a operação, nem saber quantos helicópteros foram pro fundo. Estima-se que em valores de 2020 US$50 milhões em equipamento foi pro fundo do mar.

    Para atingir a velocidade necessária para um pouso seguro, 25 nós, o Capitão ordenou que o Midway acelerasse, mas seis caldeiras estavam em manutenção. O engenheiro-chefe entrou em modo Full Scotty e acionou os motores diesel de emergência.

    Mensagens em inglês e vietnamita foram transmitidas, mesmo sem saber se o Major conseguiria recebê-las, mas ele acompanhou a limpeza do convés e com o espaço liberado, fez uma primeira tentativa para se acostumar, e voltou para o pouso.


    (USS Midway Museum)
    Como os cabos de arresto foram removidos, o Cessna não capotou, mas pousou perfeitamente na posição do terceiro cabo, a ideal para qualquer piloto naval experiente. Reduzindo o motor o Major conseguiu parar na altura da superestrutura do navio.


    Cercado por centenas de marinheiros, ele foi recebido como herói. Mais tarde o Capitão diria que o Major Buang-Ly era o homem mais corajoso que ele havia conhecido.

    E sim, tem vídeo!

  • Os marinheiros fizeram uma vaquinha para ajudar a família a recomeçar a vida nos Estados Unidos. A história de espalhou e gente de vários navios colaborou com o rachuncho.

    No final a tão temida corte marcial nunca veio, pelo contrário. Ele deixou o comando do USS Midway só um ano depois, em dezembro de 1976, por um bom motivo: Foi promovido a Contra-Almirante e se tornou comandante do Carrier Strike Group Three, uma unidade de combate formada por pelo menos um porta aviões e dez outros navios.


    Em um raro caso de final feliz, o agora Contra-Almirante Lawrence Chambers seguiu recebendo comandos de alto prestígio até se aposentar em 1984.

    Ele continua vivo e bem aos 91 anos.

    Quanto ao Major Buang-Ly, ele sua esposa e os filhos não foram esquecidos. Todos receberam cidadania americana, foram morar na Flórida e continuam vivos e bem.


    Em 2014 eles se reencontraram com o Almirante Chambers em uma cerimônia para celebrar o pouso no Midway, com direito a um Cessna do mesmo modelo. O avião original está no Museu Aeronaval em Pensacola, Flórida.

    E como nota final, o Major Buang-Ly ainda tem o privilégio de ter sido o primeiro aviador da Força Aérea Vietnamita a pousar em um porta-aviões.

    Fontes:
    Museum adds first-person account of fall of Saigon
    The Historic Birddog Carrier Landing by Major Buang-Ly
    The USS Midway and her Greatest Carrier Landing
    THE OPPORTUNITY TO MAKE HISTORY: VIETNAM WAR HERO’S FLIGHT TO FREEDOM REMEMBERED
    When Naval Academy gave up Jim Crow
    The South Vietnam Pilot Who Performed a Daring Feat To Save His Family
    Heroic World Airlines Pilots Flew Overloaded 727 on Last Flight Out Of Da Nang

    https://contraditorium.com/2020/08/09/o-almirante-negro-e-o-japa-top-gun/
  • editado August 14
    Foto de helicóptero sendo jogado no mar:
    Copter.jpg
    Foto clássica da fuga desesperada de Saigon:
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    vietnamrefugees.jpg
  • Hoje em dia a maior simplificação vem do lado dos anti-americanos e de americanos com auto-desprezo, para cada filme estilo "Rambo 2" há literalmente dezenas de filmes com simplificações do lado oposto.
  • LaraAS escreveu: »
    Hoje em dia a maior simplificação vem do lado dos anti-americanos e de americanos com auto-desprezo, para cada filme estilo "Rambo 2" há literalmente dezenas de filmes com simplificações do lado oposto.
    Não temos esse problema. Não fazemos filmes sobre heróis brasileiros, no máximo sobre políticos de esquerda, supostos santos, bandidos, anti-heróis e vítimas.

    O título de filme "American ninja" tem um tom patriótico. Se falarmos de um hipotético "O ninja brasileiro", vão pensar que é filme dos Trapalhões.
  • Fernando_Silva escreveu: »
    LaraAS escreveu: »
    Hoje em dia a maior simplificação vem do lado dos anti-americanos e de americanos com auto-desprezo, para cada filme estilo "Rambo 2" há literalmente dezenas de filmes com simplificações do lado oposto.
    Não temos esse problema. Não fazemos filmes sobre heróis brasileiros, no máximo sobre políticos de esquerda, supostos santos, bandidos, anti-heróis e vítimas.

    O título de filme "American ninja" tem um tom patriótico. Se falarmos de um hipotético "O ninja brasileiro", vão pensar que é filme dos Trapalhões.

    Bom pelo menos o filme "Tropa de elite I" foi em certa interpretação um filme sobre um tipo de herói brasileiro, o capitão Nascimento e seus comandados, e também os filmes estilo o sobre o Chico Xavier e o Bezerra de Menezes foram filmes sobre uma espécie de santos brasileiros, o que é pelo menos algo que vai a favor da auto-estima.
  • O zamericanos, com essa de se intrometer no Mundo, só escolhem aliados lixo nos locais onde metem o bedelho. O governo sul vietnamita era, desde o início, corrupto. Tanto que o manda-chuva acabou assassinado tempos depois. Imaginavam o zamericanos que se não ajudassem o Vietnã do Sul, a Rússia e a China iam avançar e tomar o país inteiro. Ao ouvirem isso, os vietnamitas de hoje dizem: _ Seus burros! Tudo o que queríamos era a nossa independência! Desde quando iríamos aceitar China e Rússia mandando por aqui?
    No fim o zamericanos, com todos os seus gastos e toda sua tecnologia, perderam a guerra para um bando de guerrilheiros... E com o toque caseiro, pois tal guerra ficou bem impopular no seu próprio quintal.
  • Botânico escreveu: »
    O zamericanos, com essa de se intrometer no Mundo, só escolhem aliados lixo nos locais onde metem o bedelho. O governo sul vietnamita era, desde o início, corrupto. Tanto que o manda-chuva acabou assassinado tempos depois. Imaginavam o zamericanos que se não ajudassem o Vietnã do Sul, a Rússia e a China iam avançar e tomar o país inteiro. Ao ouvirem isso, os vietnamitas de hoje dizem: _ Seus burros! Tudo o que queríamos era a nossa independência! Desde quando iríamos aceitar China e Rússia mandando por aqui?
    No fim o zamericanos, com todos os seus gastos e toda sua tecnologia, perderam a guerra para um bando de guerrilheiros... E com o toque caseiro, pois tal guerra ficou bem impopular no seu próprio quintal.
    Numa questão de escolha entre indiviuos em que se situam um corrupto e um adepto de uma ideologia genocida não é absurdo a escolha do corrupto.

  • Botânico escreveu: »
    No fim o zamericanos, com todos os seus gastos e toda sua tecnologia, perderam a guerra para um bando de guerrilheiros... E com o toque caseiro, pois tal guerra ficou bem impopular no seu próprio quintal.
    Os EUA não perderam a guerra. Passaram muitos anos defendendo a fronteira, mas um dia se cansaram de tantas despesas e americanos mortos e foram embora.

    Se eles quisessem, poderiam ter invadido o norte e unificado o país em pouco tempo.
  • Pensei que era mais uma história do João Cândido, mas era novidade e interessante.
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