E se a Reforma Protestante não tivesse ocorrido?

E se a Reforma Protestante não tivesse ocorrido?
Se o monge Martinho Lutero não fosse contra o papa, a Alemanha seria uma potência mundial ainda mais gigantesca. E o capitalismo não seria o mesmo.

Dizem que ele não tinha a intenção. Mas, em 1517, quando o monge alemão Martinho Lutero se revoltou com os rumos do catolicismo e propôs uma reforma na Igreja, acabou mudando o destino do mundo inteiro.

Naquela época, reis, príncipes e duques estavam insatisfeitos em prestar obediência ao papa, por isso, aproveitaram o movimento para proclamar sua independência não só religiosa mas também política. Eles viraram protestantes, brigaram com Roma e, de quebra, apossaram-se das terras da Igreja e criaram seus próprios reinos independentes. “Foi assim que o nacionalismo ganhou força, monarquias se desenvolveram e línguas e culturas nacionais puderam finalmente ganhar espaço”, conta o teólogo Haroldo Reimer, professor da PUC de Goiás.

Sem a Reforma, no entanto, a Igreja Católica continuaria a mandar na Europa, contando com o apoio do seu braço forte, o Sacro Império Romano-Germânico, da família alemã dos Habsburgos. “A Alemanha, na figura do império e com a bandeira católica, teria conseguido se expandir cada vez mais, unificando os reinos europeus no século 16, e se tornaria a maior potência mundial”, conta o historiador Wilson Maske, professor da PUC do Paraná.

O lado bom: não teria havido a 1ª Guerra, o nazismo nem a 2ª Guerra. “Esses conflitos foram deflagrados pelo atraso da unificação alemã e pela sua frustração por não ser uma grande potência”, explica Wilson. O lado ruim: outros conflitos teria surgido nos lugar delas. Além isso alguns países nem sequer existiriam – como os EUA. O Holocausto não teria acontecido, mas judeus sofreriam mais nas mão da Inquisição, que ganharia mais força. O destino do Brasil não seria muito diferente do atual – com exceção da nossa diversidade religiosa. Em vez de vários credos, haveria apenas o catolicismo.

TREVAS, RELOADED
Sem a Reforma, ideais iluministas de liberdade e igualdade seriam sufocados pelo medo e pela opressão da Igreja. Assim a Revolução Francesa teria que esperar, e Igreja e Estado absolutista continuariam de braços dados por mais tempo. Já a Inglaterra, se permanecesse católica não teria se desenvolvido economicamente nem estendido seus domínios pelo mundo. Quem ganharia seria o Sacro Império Romano-Germânico e sua aliada Espanha da Inquisição.

SÓ O PAPA SALVA
Qualquer pessoa, segundo os protestantes, pode alcançar a salvação por conta própria, sem intermediários. Se não tivesse ocorrido a Reforma, essa ideia não existiria e continuaria prosperando o comércio de indulgências – taxas cobradas pela Igreja em troca do perdão dos pecados. E Roma lucraria rios de ouro com a peregrinação de fiéis em busca das bênçãos divinas.

MAIS VIRGENS
A história dos EUA é a de protestantes em busca de liberdade religiosa. Sem eles, a América do Norte se dividiria entre colônias francesas, no Canadá e interior dos EUA, e espanholas, na costa leste (a Nova Espanha) e na faixa do Texas à Califórnia (parte do México). E, como em outros países católicos, nativos encontrariam na Nova Espanha uma imagem da Virgem Maria, que viraria padroeira do país.

BENTO 15 E A ÚLTIMA CRUZADA
Com a decadência do Império Otomano no início do século 20, o Sacro Império Romano-Germânico (que, sem as Guerras Napoleônicas, não teria se dissolvido) poderia ressuscitar as Cruzadas e tomar a Terra Santa. Mas a região não viveria em paz, com palestinos tentando retomar sua terra.

SÍ, ¿CÓMO NO?
Esqueça o inglês e o alemão – eles só se desenvolveram depois que a Reforma abriu caminho para o nacionalismo. Sem elas, línguas neo-latinas predominariam – e, aliada ao Sacro Império Romano-Germânico, a Espanha expandiria seus domínios e sua língua pelo mundo.

LUCRO? DEUS ME LIVRE!
“O trabalho enobrece o homem”: a ideia do trabalho metódico e do acúmulo de recursos veio com o protestantismo, cuja ética criou o modelo mental que influencia tanto trabalhadores quanto empregadores no capitalismo moderno.

No catolicismo da época, o sucesso neste mundo não era visto como uma virtude particularmente positiva no campo espiritual – a narrativa era mais para o lado de “neste mundo fomos feitos para sofrer, e as alegrias só surgirão no céu”.

É na teologia cristã que o trabalho, o sucesso e o acúmulo de dinheiro passam a ser vistos como consequências de bençãos de Deus em favor dos seus fiéis. E o trabalho passa a ser um dever moral. Até ali, dizer que alguém era “muito trabalhador” não era o elogio de caráter que é hoje.

Sem a Reforma, não existiria o estímulo moral extra para desenvolver a economia. O catolicismo também manteria a aura de santidade na pobreza. E com a diminuição da importância da Inglaterra no cenários internacional, a Revolução Industrial teria tomado rumos bastante diferentes.

https://super.abril.com.br/historia/e-se-a-reforma-protestante-nao-tivesse-ocorrido/

Comentários

  • editado March 2
    Volpiceli escreveu: »
    SÓ O PAPA SALVA
    Qualquer pessoa, segundo os protestantes, pode alcançar a salvação por conta própria, sem intermediários. Se não tivesse ocorrido a Reforma, essa ideia não existiria e continuaria prosperando o comércio de indulgências – taxas cobradas pela Igreja em troca do perdão dos pecados. E Roma lucraria rios de ouro com a peregrinação de fiéis em busca das bênçãos divinas...
    Explique para uma observadora externa que não acredita no dogma de salvação por perdão dos pecados qual seria a grande diferença entre isso e os pentecostais vendendo bugigangas "de Israel" ou "ungidas pelo apóstolo"? Ou só ficar prometendo bençãos e curas para convencer os fiéis a pagar o dízimo e dar outras ofertas.

    Não é tudo a mesma coisa seguindo o mesmo princípio?


  • Belo texto e muito sugestivo.
    Mas o que determina o rumo dos acontecimentos na história não são os personagens envolvidos, mas as circunstâncias... são estas que fomentam o surgimento desse ou daquele nome para mudar o rumo da história, um pouco mais cedo ou mais tarde.
  • patolino escreveu: »
    Belo texto e muito sugestivo.
    Mas o que determina o rumo dos acontecimentos na história não são os personagens envolvidos, mas as circunstâncias... são estas que fomentam o surgimento desse ou daquele nome para mudar o rumo da história, um pouco mais cedo ou mais tarde.
    Sem contar que as influências e os eventos estão interligados em teias extremamente complexas de causa e efeito que seriam impossíveis de dissipar todas as variantes, se fulano não tivesse existido e não tivesse matado beltrano talvez surgisse um descendente que teria sido muito pior que Hitler ou mais genial que Einstein e poderíamos estar em situações muito melhores ou piores, ou, não ser assim tão diferente como esse texto descreve, não é tão simples assim como apontar um determinado evento, eliminar da equação e seguir para um resultado como se fosse uma equação matemática com todos os outros valores conhecidos.

  • É exatamente como penso.
  • editado March 2
    Por falar em genial não tem qualquer nexo associar gênio com uma capacidade elucidativa extraordinária.
  • A Reforma de Lutero foi apenas uma das reações contra a ICAR naquela época.
    E nem foi a primeira, apenas a mais influente.
    O calvinismo surgiu de forma independente, por exemplo, e chegou a ser a seita predominante na França.
    A separação da igreja da Inglaterra teve motivos diferentes.
    Sem Lutero, outros provavelmente teriam feito o mesmo.
  • Volpiceli escreveu: »
    Naquela época, reis, príncipes e duques estavam insatisfeitos em prestar obediência ao papa, por isso, aproveitaram o movimento para proclamar sua independência não só religiosa mas também política. Eles viraram protestantes, brigaram com Roma e, de quebra, apossaram-se das terras da Igreja e criaram seus próprios reinos independentes. “Foi assim que o nacionalismo ganhou força, monarquias se desenvolveram e línguas e culturas nacionais puderam finalmente ganhar espaço”, conta o teólogo Haroldo Reimer, professor da PUC de Goiás.
    Isto de apossar-se das terras da Igreja aconteceu na Alemanha, quando parte dos príncipes se converteu ao luteranismo, mas outros continuaram católicos. Só que a Alemanha já estava dividida em principados e o poder do imperador era reduzido.

    Mesmo na França, o rei só conseguiu se impor totalmente sobre os nobres com Luís XIV e, na Inglaterra, os parlamentaristas ainda estavam lutando contra o rei no século XVII (e venceram).

    A ICAR perdeu suas terras na Inglaterra quando Henrique VIII criou a igreja anglicana, mas por motivos pessoais, sem, a princípio, mudar-se a doutrina.
    Volpiceli escreveu: »
    Sem a Reforma, no entanto, a Igreja Católica continuaria a mandar na Europa, contando com o apoio do seu braço forte, o Sacro Império Romano-Germânico, da família alemã dos Habsburgos. “A Alemanha, na figura do império e com a bandeira católica, teria conseguido se expandir cada vez mais, unificando os reinos europeus no século 16, e se tornaria a maior potência mundial”, conta o historiador Wilson Maske, professor da PUC do Paraná.
    Isto é questionável. A Guerra dos 30 Anos realmente quebrou a Alemanha, mas não dá para dizer com certeza que ela, sem a guerra, teria ficado unida e forte o suficiente para se expandir.
    Volpiceli escreveu: »
    TREVAS, RELOADED
    Sem a Reforma, ideais iluministas de liberdade e igualdade seriam sufocados pelo medo e pela opressão da Igreja. Assim a Revolução Francesa teria que esperar, e Igreja e Estado absolutista continuariam de braços dados por mais tempo. Já a Inglaterra, se permanecesse católica não teria se desenvolvido economicamente nem estendido seus domínios pelo mundo. Quem ganharia seria o Sacro Império Romano-Germânico e sua aliada Espanha da Inquisição.
    Também questionável. O poder da ICAR tinha diminuído bastante com a Peste Negra e outras, levando à Renascença.
    E, repetindo, a separação da Inglaterra não foi por causa de Lutero.
    Volpiceli escreveu: »
    MAIS VIRGENS
    A história dos EUA é a de protestantes em busca de liberdade religiosa. Sem eles, a América do Norte se dividiria entre colônias francesas, no Canadá e interior dos EUA, e espanholas, na costa leste (a Nova Espanha) e na faixa do Texas à Califórnia (parte do México). E, como em outros países católicos, nativos encontrariam na Nova Espanha uma imagem da Virgem Maria, que viraria padroeira do país.
    Não dá para ter certeza de que não haveria fragmentação religiosa na Inglaterra sem Lutero.
    Volpiceli escreveu: »
    LUCRO? DEUS ME LIVRE!
    “O trabalho enobrece o homem”: a ideia do trabalho metódico e do acúmulo de recursos veio com o protestantismo, cuja ética criou o modelo mental que influencia tanto trabalhadores quanto empregadores no capitalismo moderno.

    No catolicismo da época, o sucesso neste mundo não era visto como uma virtude particularmente positiva no campo espiritual – a narrativa era mais para o lado de “neste mundo fomos feitos para sofrer, e as alegrias só surgirão no céu”.
    Mas escravidão podia.
  • Fernando_Silva escreveu: »
    A Reforma de Lutero foi apenas uma das reações contra a ICAR naquela época.
    E nem foi a primeira, apenas a mais influente.
    O calvinismo surgiu de forma independente, por exemplo, e chegou a ser a seita predominante na França.
    A separação da igreja da Inglaterra teve motivos diferentes.
    Sem Lutero, outros provavelmente teriam feito o mesmo.

    Sim, mas Lutero é que começou tudo, sem Lutero dificilmente Calvino ou Henrique VIII teriam força sozinhos para se separarem a Igreja.
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