'Manifesto Comunista' está de novo na moda

editado January 8 em Religião é veneno
'Manifesto Comunista' está de novo na moda

Outro dia li um artigo no britânico The Guardian que dizia que o "Manifesto Comunista" está na moda —ou "is having a moment".

No meu tempo, ninguém nem pronunciava a palavra comunismo —aliás, para demarcar os anos, só diz "no meu tempo" quem está dobrando ou já dobrou o cabo da Boa Esperança, como meu velho pai se referia à curva dos 50. A gente viu, ao vivo, a queda do Muro de Berlim, em novembro de 1989, e partir daí, sintonizou na MTV.

Segundo o texto publicado no diário inglês, o revival é planetário. Os indícios da onda estariam por toda parte. Em Los Angeles, a cantora Grimes, ex-mulher do colonizador da lua, o bilionário Elon Musk, tuitou uma foto com o livro na mão. Na Somália, pela primeira vez, o famoso panfleto escrito por Karl Marx e Friedrich Engels no longínquo 1848 chegou às livrarias. E, na Inglaterra, a obra estrela vitrines das principais casas do ramo.

Para a geração politizada por Beavis and Butt-Head, a coisa toda anda meio embaralhada, diga-se de passagem. Ao mesmo tempo que temos que correr atrás do prejuízo, mergulhando no "Manifesto Comunista" para não soar a tia da galera, estamos bem confortáveis de printed mesh, calça baggy, pochete e tamancos plataforma. Saudades mesmo só da ovelhinha Dolly.

Entre os meus amigos comunistas, versados nos escritos de Marx e Engels, todos têm menos de 40 —ou menos de 35, eu arriscaria dizer. Aos 31, o historiador Jones Manoel, comuna como há muito não se via por estas bandas, lançou-se pré-candidato ao governo de Pernambuco pelo velho PCB. Os números que ele ostenta nas redes sociais comprovam o interesse pelo ideário que julgávamos morto: 183 mil seguidores no Youtube, 150 mil no Twitter e 145 mil no Instagram.

A propósito, se eu fundasse um partido, ia se chamar Partidão. Fica a dica, meninos: Partidão é irresistível.

Mas, voltando ao artigo do Guardian, a maré se explica pela tragédia social do nosso tempo. O capitalismo ganhara a guerra fria, porém, nunca entregou o que prometeu. Em vez de liberdade e bonança, fomos aprisionados num sistema perverso, sem saída, que nos transformou em pagadores de boleto.

Conforme o texto, um grande número de jovens está virando as costas ao capitalismo porque já entendeu que nunca vai poder, sequer, comprar uma casa própria, o sonho da minha geração. A concentração absurda de renda privilegia 1% em detrimento dos outros 99%.

Qual o sentido de seguir estudando, trabalhando sem o horizonte da vida melhor? Se não existe futuro, então, para quê? Só para enriquecer os ricos?

Na aurora de 2022, o "Manifesto Comunista" completa 174 anos. Fora publicado em janeiro de 1848, às vésperas da Revolução Francesa daquele ano, como plataforma da Liga dos Comunistas, a primeira organização internacional de operários.

De acordo com Tariq Ali, que assina o prefácio da edição brasileira lançada pela Boitempo, trata-se do último grande documento do Iluminismo europeu e o primeiro a registrar um sistema de pensamento completamente novo: o materialismo histórico.

Divido em partes, escrito com rigor e fluência, fácil de ler, o "Manifesto" soou, para mim, extremamente atual e didático. Talvez não exista nenhum outro texto do século 19 que continue tão "up-to-date".

Parágrafos inteiros explicam melhor o agora do que o tempo em que foram redigidos. Marx e Engels desenharam a evolução do capitalismo e suas consequências nefastas, inclusive prevendo o que hoje chamamos de globalização.

"Impelida pela necessidade de mercados sempre novos, a burguesia invade todo o globo terrestre. Necessita estabelecer-se em toda parte, explorar em toda parte, criar vínculos em toda parte. Pela exploração do mercado mundial, a burguesia imprime um caráter cosmopolita à produção e ao consumo em todos os países."

Em meio às propostas, algumas estão aí, na pauta das esquerdas, sendo eternamente reivindicadas, como imposto fortemente progressivo, abolição do direito de herança, educação universal, reforma agrária. "Que as classes dominantes tremam à ideia de uma revolução comunista. Nela, os proletários nada têm a perder a não ser os seus grilhões. Têm um mundo a ganhar. Proletários de todos os países, uni-vos."

https://www1.folha.uol.com.br/colunas/karla-monteiro/2021/12/manifesto-comunista-esta-de-novo-na-moda.shtml

Comentários

  • Volpiceli escreveu: »
    Em meio às propostas, algumas estão aí, na pauta das esquerdas, sendo eternamente reivindicadas, como imposto fortemente progressivo, abolição do direito de herança, educação universal, reforma agrária. "Que as classes dominantes tremam à ideia de uma revolução comunista. Nela, os proletários nada têm a perder a não ser os seus grilhões. Têm um mundo a ganhar. Proletários de todos os países, uni-vos."

    https://www1.folha.uol.com.br/colunas/karla-monteiro/2021/12/manifesto-comunista-esta-de-novo-na-moda.shtml
    Até agora, não deu certo em lugar nenhum.
  • editado January 9
    Volpiceli escreveu: »
    A propósito, se eu fundasse um partido, ia se chamar Partidão. Fica a dica, meninos: Partidão é irresistível.
    Quando eu convivi com a chamada Esquerda Festiva de São Paulo, a turma do Partidão que se juntava lá no Bar Redondo da Praça Roosevelt era até divertida, bem diferente desta Esquerda chata de hoje.
    Conforme o texto, um grande número de jovens está virando as costas ao capitalismo porque já entendeu que nunca vai poder, sequer, comprar uma casa própria, o sonho da minha geração. A concentração absurda de renda privilegia 1% em detrimento dos outros 99%.
    Esta juventude podia dar uma olhada em que tipo de casa própria cubanos e norte coreanos moram.
    E esta esparrela de 1% e 99% é uma daquelas bobagens que a propaganda política inventa e funciona melhor do que devia.
    Fora publicado em janeiro de 1848, às vésperas da Revolução Francesa daquele ano, como plataforma da Liga dos Comunistas, a primeira organização internacional de operários.
    Não sei se o parágrafo é um erro crasso ou uma pegadinha.
    Houve uma revolução francesa em 1848, mas não a Revolução Francesa, a História diferencia maiúsculas e minúsculas.
    "Que as classes dominantes tremam à ideia de uma revolução comunista. Nela, os proletários nada têm a perder a não ser os seus grilhões. Têm um mundo a ganhar. Proletários de todos os países, uni-vos."

    Esta convocação é uma das maiores vigarices da História.
    Quem não tinha nada a perder eram os ideólogos vagabundos e parasitas como Marx e líderes revolucionários como Lênin, que comandou a subversão contra o governo russo da segurança do exílio e do conforto das bibliotecas.
    Os proletários que se envolveram em aventuras revolucionárias, servindo de bucha de canhão tinham tudo a perder, seus empregos e meios de sustento, seus parcos bens, sua liberdade e suas vidas.
    Uma vez que comunistas pensam em coletivos e não em indivíduos, não interessavam quantos proletários fossem demitidos, presos, feridos ou mortos, no fim a classe operária em algum momento futuro triunfaria.
    Já os ideólogos e líderes, importantes demais para se arriscar ou esperar, queriam se dar bem agora e com segurança.
  • Ah... só prá complementar, em 1983 lançaram em formato de livro "O Manifesto Comunista em Quadrinhos", coletânea das publicações do The Guardian.
    Por pior que seja aquela merda, vê-se que sempre tem quem tente mantê-la na moda.
  • editado January 9
    Na literatura anglo às vezes dizem Revolução Francesa de 1848...
  • Gorducho escreveu: »
    Na literatura anglo às vezes dizem Revolução Francesa de 1848...

    Como ele tá citando The Guardian, faz sentido, mas não é usual por aqui.
  • editado January 10
    Acauan escreveu: »
    Uma vez que comunistas pensam em coletivos e não em indivíduos, não interessavam quantos proletários fossem demitidos, presos, feridos ou mortos, no fim a classe operária em algum momento futuro triunfaria.
    Já os ideólogos e líderes, importantes demais para se arriscar ou esperar, queriam se dar bem agora e com segurança.
    Trecho de uma crônica de Arnaldo Jabor sobre a imortalidade através do comunismo:
    Eu devo ter assistido a umas mil horas de reuniões de esquerda em minha vida. Fui comunista de carteirinha no PCB, de onde saí para um grupo “independente”, mais moderno, cognominado, claro, pelos velhos “pecebões” de pequeno-burguês e “revisionista”.

    E confesso que tenho até saudades das noites de meus vinte anos românticos. Fumávamos muito, sérios, malvestidos, “duros”, planejando instalar o socialismo no país, sem armas, sem apoio sindical ou militar, tudo na base do desejo.
    Ninguém precisava estudar, pois a verdade estava do nosso lado. A ideologia mecânica justifica a ignorância. Para nós, até a morte era pequena, como nos ensinava o camarada Jacques, supervisor de nossa “base”:

    “O marxismo supera a morte, pois, uma vez dissolvido no social, o indivíduo perde a ilusão de existir como pessoa.
    Ele só existe como espécie. E não morre!”.

    E eu, marxista feliz, sonhava com a vida eterna...

    Eu olhava meus companheiros e pensava: “Como vamos conquistar o poder fumando mata-ratos, reunidos neste quarto e sala imundo? Como vamos dominar o Brasil sem uma reles Beretta?” Mas ficava quieto, com medo de ser chamado de “vacilante”.
    Era delicioso sentir-se importante, era bom conspirar contra tudo, desde o papai reaça até a expulsão do imperialismo ianque. Tudo nos parecia claro, os oradores “surfavam” em ondas ideológicas com meia dúzia de palavras-chave sobre a tal “realidade brasileira”: burguesia nacional, imperialismo, latifúndio, proletariado, campesinato etc. Nossa tarefa de comunistas era nos infiltrar em todos os “nichos da sociedade” para, de dentro, conquistar o poder socialista.
    Tínhamos de nos infiltrar em sindicatos, academias, universidades e — coisa que me deprimia especialmente — em “associações de bairro”, onde eu me via doutrinando donas de casa da Tijuca sobre as virtudes do marxismo.
    Exatamente como este híbrido governo Lula/ PT está fazendo hoje — empregando (infiltrando) milhares de companheiros aguerridos e “puros” no aparelho do Estado.

    Parecia-nos perfeito o diagnóstico sobre o Brasil — os argumentos iam se organizando “dialeticamente” enquanto a madrugada embranquecia.
    Até que chegava a hora fatal: “O que fazer?” E aí... ninguém sabia nada. Discutíamos infinitamente para chegar a uma certeza da qual partíamos. Esse é o drama das ideologias: chegar a uma conclusão que já existe desde o início.
    E aí pintava o desespero. As acusações mútuas cresciam, com os xingamentos previstos na cartilha marxista: hesitantes ou radicais, ou sectários ou alienados ou provocadores ou obreiristas ou liberais ou o diabo a quatro. E eu, do meu canto neurótico, pensava: “Não ocorre a ninguém que há invejosos, ignorantes, mentirosos, ciumentos, paranoicos, babacas e, simplesmente, os “FDPs”? Por que ninguém via o óbvio?
    "O Globo" 23/02/10
Entre ou Registre-se para fazer um comentário.