O ateísmo moderno é filho do cristianismo e ambos compartilham uma raiz oculta na perda do espaço sagrado.
O ateísmo moderno, apesar de todas as suas críticas à religião, é, em muitos aspectos, a continuação de uma visão de mundo profundamente cristã, especialmente na forma como se relaciona com a Terra, o divino e a ideia de presença sagrada.
Antes do surgimento do cristianismo, a maioria das culturas — grega, romana, persa, celta, egípcia, hindu, japonesa, tupi-guarani, etc. — acreditava em deuses que habitavam lugares específicos: montanhas, bosques, rios, lareiras. O divino estava presente no mundo. Espaços sagrados existiam por toda parte, e a ideia de deuses reais não excluía outros. O romanos, por exemplo, não negavam a existência de deuses estrangeiros; simplesmente os classificavam ou os subordinavam.
Isso mudou radicalmente com o judaísmo e, de forma ainda mais decisiva, com o cristianismo. Após a destruição do Segundo Templo em 70 d.C., o judaísmo perdeu sua morada única para Deus na Terra. Não havia mais um lugar onde Deus habitasse. O cristianismo enfatizou cada vez mais um Deus que estava fora do espaço, em todos os lugares e em lugar nenhum. O céu tornou-se o reino de Deus. A Terra era caída, temporária.
Munido dessa visão, o cristianismo passou a deslegitimar quase todos os sistemas de crenças locais, animistas ou politeístas que encontrou. Árvores e pedras deixaram de ser divinas. Os espíritos dos rios e das montanhas tornaram-se superstições pagãs a serem erradicadas. Os primeiros cristãos chegaram a ser acusados pelos romanos de serem ateus por negarem todos os deuses locais e costumes.
Avançando rapidamente, essa dessacralização da natureza, iniciada pelo colapso do Templo e consolidada pela teologia cristã, preparou o terreno para o secularismo moderno. Sem um deus na montanha, a montanha pode ser explorada para mineração. Sem um rio sagrado, o rio pode ser poluído. A terra se torna matéria-prima.
O ateísmo moderno dá continuidade a esse legado. Rejeita Deus, sim, mas também compartilha com o cristianismo a premissa de que o sagrado não reside aqui. Nesse sentido, ateísmo e cristianismo são dois ramos da mesma árvore histórica: ambos consideram a Terra profana.
Assim, quando os ateus atuais criticam a religião, muitas vezes não percebem o quão profundamente sua própria visão de mundo depende de inovações cristãs: uma única verdade transcendente, a perda da geografia sagrada e uma marcha linear do progresso. E, ironicamente, foi justamente essa dessacralização da Terra que possibilitou a exploração tecnológica que nos levou ao colapso climático.
Seria justo dizer que o ateísmo, longe de ser o oposto do cristianismo, é um de seus filhos estranhos.
0
0
0
0
0
0
0
Fernando_Silva
2026-Fevereiro-3
Comentários: 1389
Tópicos criados: 18
Há ateus em outras religiões. Na Índia, por exemplo. Eu diria que, nos países cristãos, foi possível conseguir o Estado laico mais cedo. E a liberdade de religião. Ou falta dela.
0
0
0
0
0
0
0
Acauan
2026-Fevereiro-3
Comentários: 315
Tópicos criados: 12
Volpiceli
...
Seria justo dizer que o ateísmo, longe de ser o oposto do cristianismo, é um de seus filhos estranhos.
O ateísmo moderno Ocidental é influenciado - não determinado - pelo materialismo dialético marxista, que quebrou o monopólio da cosmovisão cristã e estabeleceu as bases teóricas para uma sociedade sem Deus, por pior que fossem estas bases.