A tragédia da Venezuela é o socialismo
Terremoto não é culpa de governo. A Venezuela vai conviver com isso para sempre, como o Japão, o Chile e o México convivem. O que muda é como reagir a eles.
A mesma natureza que infelizmente deu terremotos para a Venezuela colocou uma das maiores reservas de petróleo do mundo lá. Ninguém escolheu nenhuma das duas heranças geológicas e há que se conviver com ambas.
O Brasil enfrenta enchentes e mortes evitáveis em série todo ano. Não estamos em posição de apontar dedos para ninguém, temos nossos BOs para cuidar, a maioria por motivos que lembram os da Venezuela e seu socialismo do século 21, tão caro ao grupo político que governa o Brasil desde 2003, com poucos anos de intervalo.
O historiador britânico Niall Ferguson identificou as instituições e ideias que geraram a prosperidade ocidental: livre competição, revolução científica, direitos de propriedade, medicina moderna, sociedade de consumo e ética de trabalho.
Estes são "aplicativos" civilizacionais que podem ser instalados ou desinstalados por governos, com resultados mais que previsíveis. Não tem nada a ver com geografia, raça ou qualquer outro tipo de tese determinista. São escolhas.
É um conjunto de crenças, tradições e instituições que qualquer povo pode adotar ou recusar. O Japão instalou os aplicativos pós-1945, a Venezuela chavista desinstalou. Deu no que deu para ambos, para a surpresa de nenhum observador honesto.
Para Ferguson, o Estado de direito assentado na propriedade privada e a livre concorrência são a fundação do sucesso ocidental. O chavismo impôs o contrário: expropriações, nacionalização de indústrias, hostilidade declarada à iniciativa privada.
O resultado prático foi a deterioração do ambiente de negócios, o sucateamento de setores inteiros, a começar pelo petróleo, e o fechamento de milhares de empresas.
A Missão Barrio Adentro, lançada em 2003 pelo chavismo com médicos cubanos, prometia capilarizar a saúde primária. O próprio presidente da Federação Médica Venezuelana já dizia, em 2007, que 70% dos módulos estavam abandonados. Anos depois, a estimativa passava de 80%. O país mergulhou em escassez de medicamentos, desnutrição e fome.
A capacidade do povo venezuelano de consumir foi aniquilada pela hiperinflação, que chegou à casa dos três dígitos ainda em 2016 e depois explodiu. A Missão Mercal, rede estatal de alimentos, virou símbolo do desabastecimento: racionamento, filas intermináveis, protestos.
A Venezuela substituiu a competência profissional e o mérito por alinhamento político, o que motivou uma das maiores fugas de cérebros da história recente. A PDVSA, estatal do petróleo, é um caso emblemático de destruição deliberada da capacidade gerencial por aparelhamento ideológico.
Hoje em dia, quase não há uma grande multinacional de petróleo que não conte com especialistas expulsos da Venezuela, gente que poderia estar no próprio país produzindo riqueza e inovação, mas acabou vítima do "excesso de democracia" do país, como já definiu Lula.
A Petrobrás venezuelana, que sustentava praticamente sozinha o país inteiro, trocou progressivamente quadros técnicos por militantes leais ao chavismo. Quem poderia prever o desastre que viria, não?
Um prédio não cai apenas por causa da placa tectônica, como o Japão não cansa de mostrar.
O país do sol nascente perdeu a segunda guerra, foi invadido, e a ocupação ocidental impôs uma nova Constituição, um novo sistema legal, novas instituições de Estado de direito. O país, vítima de bombas atômicas, foi reconstruído com os aplicativos que a Venezuela do chavismo recusou.
Oitenta anos mais tarde, sob a primeira-ministra Sanae Takaichi, do Partido Liberal Democrata, conservadora, o Japão segue atualizando esses aplicativos, com o sucesso que o mundo conhece e admira.
Circula um argumento, inclusive em colunas de centro e liberal-progressistas, que trata o colapso venezuelano como sintoma genérico de mau governo. Equipara populismo de esquerda e de direita, termos sempre mal definidos, como males equivalentes por pedágio ideológico. O argumento cai como um prédio de Caracas depois do primeiro chacoalhão.
Japão, Coreia do Sul e Singapura são potências orientais que foram ocidentalizadas nas últimas décadas. A América Latina, na direção contrária, importou ideias que negam os fundamentos que construíram o Ocidente. Sabemos os resultados.
A população do continente entendeu o erro e já começa a desinstalar os aplicativos nefastos, com altos e baixos, e com escolhas nem sempre defensáveis, mas na legítima tentativa de corrigir o rumo. Não vai ser fácil, nunca é, mas há esperanças.
Ainda há muito o que fazer para limpar o HD latino de arquivos defeituosos e os vírus ideológicos que travam o sistema operacional da região, mas a boa notícia é que não precisamos de terremotos ou enchentes para isso, basta instalar os aplicativos corretos.
https://noticias.uol.com.br/colunas/alexandre-borges/2026/06/30/a-tragedia-da-venezuela-e-o-socialismo.htm