Redução da jornada de trabalho é erroÉ perigoso contar com ganhos de produtividade antes de gerá-los. A França perdeu essa aposta e ainda busca uma saída
Por Patrick Martin 22/07/2025 Durante visita à França em junho, o presidente Lula apresentou aos empresários franceses, reunidos pela maior entidade empresarial francesa — o Mouvement des Entreprises de France (Medef) —, reformas para levar o Brasil da décima para a sexta posição na economia mundial. As empresas da França, país que ocupa o terceiro lugar no ranking de investidores no Brasil, só podem apoiar esse programa ambicioso. Mas outra reforma parece estar em preparação: a redução da jornada de trabalho. Como representante do empresariado francês, falo por experiência própria: não cometam esse erro!
Na França, o tema ganhou destaque nas eleições legislativas de 1997. O slogan das 35 horas semanais partia de uma constatação real: o trabalho tende a diminuir com o aumento da produtividade. Mas é o aumento da produtividade que permite a redução da jornada, e não o contrário. Esse slogan populista influenciou o voto dos franceses.
Assim como talvez ocorra no Brasil, alguns economistas e setores, especialmente o de lazer, apoiaram a medida. Lembro-me até da Alemanha, que comemorava discretamente esse erro francês. Vocês também devem ter economistas, empresários e vizinhos comemorando antecipadamente. Mas, na prática, o que aconteceu depois que a medida foi implementada na França?
Primeiro, o custo por hora trabalhada aumentou 10% (pagavam 35 horas como se fossem 39, a duração legal anterior), e a produção caiu proporcionalmente. Com isso, o Estado precisou ajudar as empresas com € 10 bilhões anuais desde 2002, valor que ultrapassa € 20 bilhões hoje.
Depois, milhares de empresas e serviços públicos ficaram desorganizados. Profissionais da saúde se queixam regularmente das 35 horas, da degradação dos serviços, da perda de eficiência e autonomia. Isso afeta também indústria, comércio, serviços e construção.
Terceira consequência: a redução sem corte salarial desequilibrou a balança comercial. A competitividade caiu, houve perda de mercado e desindustrialização, enquanto a Alemanha, nosso principal parceiro e concorrente, adotava uma política completamente oposta de contenção dos custos salariais.
Quarta consequência: com jornada reduzida e custo maior, as empresas pressionaram por produtividade onde ela era limitada, gerando mais cobrança sobre os trabalhadores, escalas otimizadas com menos pausas, tarefas múltiplas e horários inflexíveis.
Hoje a França tem a terceira menor carga horária da Europa, taxa de emprego baixa e desemprego alto. Segundo o Rexecode, um instituto de estudos econômicos privado francês, em 1980 o PIB per capita era equivalente ao dos Estados Unidos; hoje está 45% abaixo. E os mais afetados foram justamente os trabalhadores, principalmente os mais pobres.
Reduzir a jornada, seja pelas 35 horas, seja pela semana de quatro dias, não é só risco econômico: é renunciar ao crescimento, emprego, poder de compra e financiamento da segurança social.
Qual a lição? É perigoso contar com ganhos de produtividade antes de gerá-los. A França perdeu essa aposta e ainda busca uma saída.
Valorizem nossa qualidade empresarial, mas não incluam a redução da jornada entre nossos pontos fortes. Vinte anos depois da adoção das 35 horas, nenhum país europeu seguiu esse caminho. Façam como eles, não como nós.
*Patrick Martin é presidente do Medefhttps://oglobo.globo.com/opiniao/artigos/coluna/2025/07/reducao-da-jornada-de-trabalho-e-erro.ghtml