O autismo não é uma doença nem um termo que defina uma condição específica, mas uma classificação científica que mudou de definição algumas vezes, primeiro nos anos 90, quando o conceito de "espectro" foi ganhando força, e depois em 2013, quando o manual de diagnósticos DSM-5 torna oficial o conceito de TEA, que significa transtorno do espectro autista.
Isso significa que o autismo descreve diferentes condições que antes eram classificadas de modo diferente, então, se nos anos 90 uma pessoa receberia um diagnóstico de Síndrome de Asperger e outra de autismo, hoje ambas podem receber um diagnóstico de transtorno do espectro autista, talvez uma pessoa em nível 1 e outra em nível 2 ou 3.
Aliás, uma curiosidade sobre isso é que o termo "Síndrome de Asperger" deixou de ser usado, até onde entendo, parcialmente porque o Dr. Hans Asperger trabalhou em Viena durante o regime nazista, o que mostra a influência do politicamente correto nessas classificações. Mas até aqui temos que o termo "autismo" é meio que um guarda-chuva para vários tipos de transtornos.
Então é meio confuso de entender o que é o autismo, porque podemos estar falando de coisas bem diferentes, que podem ir de pessoas com problemas extremos como o Rain Man daquele famoso filme com Tom Cruise e Dustin Hoffman, personagem baseado em um autista real, até pessoas com capacidade mental preservada e inteligência acima da média, como Elon Musk, que já declarou ter síndrome de Asperger.
Uma coisa em comum que todas as pessoas do espectro autista têm é basicamente dificuldade na comunicação social, mas isso pode ocorrer de diferentes formas e em diferentes níveis.
Quem me conhece de longa data aqui no fórum talvez se lembre que eu tinha uma depressão bem severa 20 anos atrás, quando entrei no fórum pela primeira vez; lembro de algumas conversas com a Apocalíptica sobre isso. A minha depressão era em função de um outro problema não diagnosticado, que na época, devido à falência do nosso sistema de saúde, eu acabei por autodiagnosticar como sendo fobia social.
Eu passei por ao menos 6 médicos naquela época, 2 psicólogos e 4 psiquiatras. Um dos psicólogos era privado, os outros eram do sistema público. O fato é que eu não ouvi a palavra autismo nem uma única vez nessa época. A primeira psiquiatra com quem passei, e que só fez a minha triagem, foi quem me recomendou um remédio que mencionava a tal da fobia social na bula e, quando eu pesquisei, me identifiquei parcialmente com o problema. Problema que, aliás, foi uma das razões para eu começar a frequentar esse tipo de fórum na internet, mas isso já é uma outra história.
O fato é que eu tinha 20 anos de idade quando tentei tratar e resolver o problema e quando acabei me autodiagnosticando com fobia social. Na época, a internet ainda não tinha tanta informação, mas eu tinha acesso a sites com manuais de doenças psiquiátricas e esse era o único diagnóstico no qual eu me encaixava melhor.
Eu lembro que, por volta de 2015, numa segunda passagem minha pelo RV, eu encontrei alguém aqui com quem discuti sobre fobia social e ele foi veemente em dizer que o que eu tinha não era fobia social, porque eu não tinha "medo" de situações sociais, tinha facilidade para falar em público, etc.
Eu lembro de discutir e dizer que eu preferia o termo ansiedade social, porque a palavra "medo" dava uma noção incorreta do que era essa doença e que sim, meu caso era mais atípico do que o do fóbico social clássico, porque eu não tinha medos e reclamações comuns a muitos fóbicos sociais, mas somente extrema ansiedade.
Eu não lembro do nome da pessoa, mas lembro que ele postou algumas classificações novas. Naquela época, a fobia social tinha sido dividida em Transtorno de Ansiedade Social e Fobia Social; ele também postou algum outro transtorno relacionado a dificuldades sociais que não me lembro. Eu realmente achei que as classificações novas não eram muito favoráveis ao meu caso, mas ignorei.
Um pouco mais tarde, por volta de 2018, eu iniciei um programa do Jordan Peterson de "self authoring". O objetivo é autoconhecimento e eu parei na primeira parte, quando, com o programa, me dei conta de que, embora eu tivesse mudado 180 graus em muitas coisas na minha vida desde que comecei a tentar resolver meus problemas pessoais, o problema central ainda existia intacto e inalterado.
Por uma semana, eu me senti um imbecil e um fracassado. Eu passei os últimos 18 anos mudando um monte de coisas em mim mesmo, mas sem resolver o problema central que deu origem a toda tentativa de mudança. Eu me senti como se tivesse mudado todo o resto, exceto aquilo que de fato importava. Eu acabei nem concluindo o programa e tentei esquecer o assunto.
Há cerca de 3 meses, no fim de fevereiro de 2026, eu estava pensando sobre tudo isso e decidi fazer uma nova pesquisa, achei vários transtornos relacionados a problemas sociais e, pelas definições atuais, não achei que me encaixasse em nenhum deles. Foi quando eu descrevi os sintomas e joguei as opções no ChatGPT e perguntei qual delas era a mais provável. Foi o ChatGPT quem acabou dando a dica certa. A resposta era que nenhum daqueles transtornos era provável, mas sim o autismo.
Eu achei que ele estava alucinando e comecei a explicar a ele que autismo era outra coisa completamente diferente e não tinha nada a ver com o meu problema. Daí ele começou a me ensinar sobre autismo e eu pude perceber que, na verdade, eu não tinha a menor noção sobre o que era autismo. Enfim, então eu pesquisei sobre como eu poderia conseguir um diagnóstico correto e decidi que ao menos um diagnóstico médico real para o meu problema eu queria finalmente ter.
A forma correta de ter um diagnóstico começa com um laudo neuropsicológico e, depois, com o laudo em mãos, é preciso a confirmação de um psiquiatra. Eu procurei e achei uma neuropsicóloga na minha cidade e fui atrás do tal laudo; são 2 meses e várias sessões para fazer o laudo. Eu não sabia, mas ele inclui um teste de QI.
Basicamente, o meu laudo indicou transtorno do espectro autista nível 1. Isso seria classificado no passado como Síndrome de Asperger e não como autismo do tipo Rain Man. Confesso que fiquei meio chocado em descobrir que o problema que eu estava tentando curar é, na verdade, uma deficiência mental sem cura. Mas, na verdade, isso explica muita coisa, inclusive o porquê de, mesmo depois de ter sido tão honesto comigo mesmo nessa jornada de 20 anos, mudando tanta coisa dentro de mim, ainda assim eu não ter conseguido resolver o problema. Ao menos a culpa do fracasso eu não preciso mais carregar.
Embora seja uma deficiência mental, ela não afeta a minha inteligência. Eu sempre soube que eu sou mais inteligente do que a média, mas também já conheci muita gente claramente mais inteligente do que eu, então eu sempre tive curiosidade em saber o meu QI e o laudo me deu a resposta.
Eu tenho um QI de 119 na escala Wechsler de inteligência para adultos (WAIS-III), o que é acima da média, mas está abaixo do que classificam como "altas habilidades" e popularmente chamamos de genialidade e superdotação. Ou seja, nada de especial aqui, eu sou só inteligente, mas nada fora do normal. Eu já era inteligente o suficiente para perceber isso, mas confesso que gostaria de ter pontuado melhor. Seria legal ter alguma excepcionalidade positiva para compensar a deficiência mental.
Sobre os malefícios do meu problema, até hoje eu carrego uma depressão leve, que também apareceu no laudo, ou seja, em 26 anos de problema, eu nunca me livrei completamente da depressão, embora tenha aprendido a conviver com ela, o que me tirou da depressão profunda que eu já vivi aos vinte e poucos.
Minha deficiência é específica em comunicação social, eu não consigo fazer amigos, não tenho nenhuma noção de como funciona o flerte, então minha habilidade de arrumar namoradas é zero, mas, de passar vergonhas históricas tentando minha capacidade é 10, nisso eu sou medalha de ouro.
Eu nunca me vitimizei por conta desses problemas, mesmo porque eu sempre achei que a culpa era minha, mas sempre olhei para pessoas que nascem em circunstâncias mais difíceis do que a minha e sempre achei que, apesar dos meus problemas, tem muita gente enfrentando coisa pior.
Ainda com cerca de 25 anos de idade, eu tive um período em que, apesar de pensar assim, eu admiti para mim mesmo que, embora isso seja verdade, a vida das pessoas ao meu redor e que nasceram em condições semelhantes à minha, como irmãos e primos, definitivamente é mais fácil do que a minha. A vida com esse tipo de deficiência sempre vai ser mais difícil do que a de alguém que vive em um meio semelhante, mas não tem uma deficiência qualquer. Ainda assim, essa é a vida, poderia ser pior.
Lá atrás, embora eu achasse que se tratava de uma doença curável, eu já lidei com essa questão e não acho que ter uma condição que torne a vida mais difícil é desculpa para qualquer coisa. Ainda assim sou solteiro, moro com minha mãe e 39 gatos, já aceitei que vou acabar nunca tendo família ainda que seja bem sucedido profissionalmente e não tenha problemas financeiros. Minha vida sempre vai ser diferente do que seria o "normal".
Tá aí o longo relato sobre minha descoberta aos 46 anos sobre algo que eu jamais imaginei que pudesse ter.